A internação involuntária de dependentes químicos no Brasil.
Enviada em 05/01/2022
O cantor Nando Reis compôs a música “Os cegos do castelo” para retratar sua experiência pessoal com o uso de drogas e também o seu desejo de libertação da dependência química: “Eu não quero mais mentir, usar espinhos que só causam dor. Eu não enxergo mais o inferno que me atraiu, dos cegos do castelo me despeço e vou…”. Entretanto, no contrafluxo da percepção de Nando, há muitos indivíduos que não se reconhecem imersos na dependência de drogas, pois apesar de o vício existir em suas vidas, permanecem na “cegueira” de que ainda têm autonomia. Assim, essas pessoas caminham junto a uma ilusória sensação de segurança que pode guiá-los por um caminho incerto e de precoce finitude.
Em primeiro plano, a falta de reconhecimento do vício pelos próprios pacientes dependentes figura como principal causa relacionada à internação involuntária. Segundo dados recolhidos pelo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), ao menos 28 milhões de pessoas têm algum parente dependente químico na família e, após a descoberta, os pacientes demoram entre 3 e 7 anos para iniciar a reabilitação. Logo, é possível observar que o período de aceitação sobre a perda do autocontrole pode demorar tempo suficiente para causar sérios danos à saúde do dependente químico, o que leva muitas famílias a optarem pela internação contra a vontade do paciente.
Além disso, a decisão de protelar a internação involuntária pode levar a uma consequência irreversível aos usuários de drogas : a morte. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o consumo de drogas causa 500 mil mortes anuais. Desse modo, o aumento de internações representa um importante instrumento de contenção desse expressivo número de perdas, ainda que os pacientes não as enxerguem como opções viáveis.
Nesse sentido, o Ministério da Saúde deveria criar um programa de assistência ao dependente químico chamado “Preservação da vida”, por meio do qual pacientes com capacidade de discernimento, porém relutantes à ideia de internação, receberiam um acompanhamento médico domiciliar que monitorasse periodicamente a condição física e psicológica desses indivíduos, de modo que fosse possível promover uma desintoxicação assistida, monitoramento da saúde por exames de sangue e ainda adverti-los sobre os silenciosos malefícios trazidos por essa prática, a fim de estimulá-los a optar pela internação voluntária, e em última circustância, finalmente recorrer à internação involutária, caso fosse necessário. Ademais, os integrantes do programa poderiam ser convocados para comparecer a palestras de conscientização e também poderiam receber um auxílio financeiro ao final da reabilitação como um estímulo a esse recomeço. Dessa maneira, o Brasil caminhará para um futuro de habitantes mais saudáveis e amparados.