A internet facilitou a informação, mas restringiu a capacidade de reflexão

Enviada em 04/03/2020

O Barroco, desenvolvido no século XVII, é a expressão artística de uma época marcada por contradições, dúvidas, desequilíbrio e instabilidade humana. Analogamente, o Brasil contemporâneo mostra-se um país de oposições, uma vez que a internet, embora facilite o acesso a um grande acervo de informações, tem restringido a capacidade de reflexão dos seres. Com isso, tal problemática apresenta como uma das principais causas e consequências, respectivamente: a ausência de um letramento digital escolar e a alienação da sociedade civil. Por conseguinte, hão de ser analisados esses entraves, a fim de solucioná-los com eficácia.

Em princípio, é imperioso destacar o despreparo dos jovens no uso consciente e crítico das diversas mídias digitais, a exemplo da internet. Nesse contexto, segundo o educador brasileiro Paulo Freire, a prática educacional deve representar uma luta em prol de formas de conhecimento, habilidades e relações sociais que promovam as condições para a autoemancipação. Entretanto, a abordagem tradicional de ensino-aprendizagem – baseada na transmissão de conteúdos “engessados” e na escassez de experiências escolares voltadas à educação digital e à formação de exímios pensadores, e não repetidores de informação – dificulta a estruturação de uma consciência crítica estudantil. Logo, é substancial a superação desse método arcaico de educação brasileira.

Ademais, é importante pontuar a falta de autonomia e a passividade do corpo civil frente ao “bombardeio” de informações disponíveis na internet. A esse respeito, de acordo com o filósofo alemão Max Horkheimer, o avanço dos recursos técnicos de informação está atrelado a um processo de desumanização. Desse modo, verifica-se que grande parte da população, devido à dificuldade de gerir e filtrar as informações com que interage, é manipulada e controlada pelas mídias – por exemplo, ao propagar notícias falsas (“fake news”) ou pesquisar em “sites” pouco confiáveis. Assim, faz-se mister a reformulação dessa postura social.

Depreende-se, portanto, a necessidade do letramento digital para os indivíduos. Nesse sentido, cabe ao Ministério da Educação – ramo do Estado responsável pela formação civil – reformular a abordagem de ensino-aprendizagem vigente nas escolas brasileiras. Tal ação deve ser realizada por meio do fomento ao Projeto Político Pedagógico (PPP), que inclua a formação digital dos jovens e o debate acerca das multifaces da internet – conduzido por profissionais capacitados (tecnólogos e sociólogos) –, com o fito de contribuir para o desenvolvimento de cidadãos críticos e emancipados. Dessa forma, será possível “dissolver” o contraste – típico do Barroco – existente na sociedade contemporânea.