A internet facilitou a informação, mas restringiu a capacidade de reflexão

Enviada em 07/03/2020

Era heraclitiana

No limiar do século XXI, o advento da Revolução Técnico-científico-informacional promoveu uma forma de relacionamento baseada nos recursos oferecidos pela internet. Nessa perspectiva, dada a grandiosidade da guinada comportamental, estabeleceu-se na contagem do tempo histórico um novo período, marcado pelas transformações decorrentes da desestruturação da barreira distância-tempo. Assim, a comunicação tornou-se imediata, concomitantemente, aumentou geometricamente os fluxos informacionais. Para tanto, devido à interferência social provocada pelas redes hodiernas, faz-se urgente compreender seus fenômenos bilateralmente para propor soluções às partes negativas.

Nesse ínterim, reproduziu-se uma concepção de sapiência relacionada ao indivíduo atualizado, tornando obsoleto e irrelevante o passado. Em síntese, o princípio “arché” proposto pelo pré-socrático Heráclito de Éfeso nunca foi tão vivenciado como nesta década, isto é, analogamente a concepção do filósofo grego de que não é possível  banhar-se duas vezes no mesmo rio está o fluxo de informações contemporâneo, o qual não permite ao indivíduo vivenciar além do instantâneo, pois “tudo flui”. Logo, depreende-se que as pessoas estão mais vinculadas ao superficial e ignorando o âmago dos acontecimentos.

Seguindo essa linha, nota-se que cidadãos alienados, mesmo na era das comunicações, são uma realidade crescente. Por exemplo, uma das maiores problemáticas da atualidade é o compartilhamento de “fake news”, em sua maioria sem nenhum embasamento lógico, como diria Machado de Assis em “Memorial de Aires” : “Tudo é matéria à línguas agudas”, ou seja, a limitação da reflexão devido ao bombardeamento informacional conduz à ignorância e, aquilo que deveria promover o homem está reduzindo-o a um animal movido por instintos, sem capacidade de pensamento e a um ser contemplador.

Destarte, ao cabo de reduzir os danos da internet e aprimorar seus benefícios, medidas se fazem prementes. Portanto, cabe aos Ministérios da Educação e ao responsável pela cultura trabalharem o desenvolvimento do senso crítico nas escolas, para tal, adicionando-o como uma matéria da grade curricular, na qual deverá ser trabalhada a seleção de informações e a aprimoração cognitiva, afinal o ensino também está fadado à digitalização. Dessa forma, educando os brasileiros a serem críticos, conscientes e capazes de formar opinião, garantindo que eles estarão livres da inércia e passividade da ’era heraclitiana'.