A internet facilitou a informação, mas restringiu a capacidade de reflexão

Enviada em 15/03/2020

Ainda que o advento da internet tenha tornado o acesso à informação mais fácil e democrático, à questão dos prejuízos à capacidade de reflexão da população nunca foi dada a devida importância, visto que mais de 20% da população brasileira ainda sofre com o analfabetismo funcional. Isso favorece a manutenção de manchetes sensacionalistas, haja vista que poucos se dispõem a ler as matérias na íntegra, assim como provoca a disseminação das “fake news”, que são sustentas pela dificuldade de análise de quem as acessa. Com efeito, debates acerca da temática são uma medida que se impõe.

Em primeiro plano, é necessário restringir o poder de manipulação exercido pela mídia, de forma que a população seja menos influenciada por chamadas tendenciosas e não perpetuem estereótipos contra, principalmente, as minorias sociais. Ademais, a propagação de manchetes enganosas, atualmente, mostra-se ainda mais preocupante devido ao cotidiano veloz a que as grandes cidades estão submetidas, uma vez que muitas pessoas dispensam menos tempo à leitura de reportagens e atenham-se mais aos seus títulos. Como consequência disso, tem-se casos como o da atriz Isis Valverde, que, ao postar uma foto amamentando seu filho e promovendo a novela na qual está atuando, teve seu nome vinculado a uma manchete enganosa, desrespeitosa e sugestiva.

De outra parte, as “fake news”, que existem desde o princípio da Imprensa, mostram-se cada vez mais preocupantes. Comumente associadas a propagandas políticas, devido à sua larga adesão nas últimas campanhas presidenciais em diversas partes do mundo, as notícias falsas assumem contornos ainda mais sérios quando promovem a revolta da população e incitam a violência contra supostos criminosos. Em São Paulo, uma notícia caluniosa culminou no linchamento e na morte de uma mulher falsamente acusada de raptar crianças, o que comprova a gravidade da situação acerca das “fake news” e da perigosa rapidez com que são reproduzidas. Nesse sentido, um caminho possível para combater a incapacidade de reflexão sobre das informações a que se tem acesso passa, invariavelmente, por uma campanha nacional de conscientização acerca do tema.

Portanto, urge que o Ministério da Educação (MEC), em parceria com os desenvolvedores de aplicativos de redes sociais, atue no intuito de mitigar os casos de proliferação de informações falsas e os problemas de compreensão da população quanto às informações a que se tem acesso. Assim, cabe aos grandes aplicativos, por meio da restrição de compartilhamento de notícias por usuário, frear a disseminação de informações equivocadas e reportá-las, quando necessário, ao Ministério Público, a fim de evitar novas tragédias. Ao MEC, por sua vez, compete a realização de campanhas informativas quanto à problemática do analfabetismo funcional, com o objetivo de incentivar o hábito da leitura.