A internet facilitou a informação, mas restringiu a capacidade de reflexão
Enviada em 16/03/2020
O analfabeto funcional do século XXI
O conhecimento surge a partir de perguntas, que, quando respondidas, geram novos questionamentos. Entretanto, isso mudou com a internet, pois a quantidade de informações contidas nela é tão grande que dificulta a reflexão sobre elas. Tão grave quanto isso, é a qualidade de muitas informações. Desse modo, a internet, que poderia ser o maior meio de aprendizagem, acaba sendo apenas um livro lido por analfabetos funcionais.
Sabe-se que informação é diferente de conhecimento. Por isso que a infinidade de dados com que as pessoas estão expostas diariamente não assegura que elas absorveram e assimilaram aquele material. Em geral, o que acontece é a leitura do informe sem a concomitante raciocinação dele. Pode-se atribuir a isso o fato de que as pessoas estão sempre com pressa e não param para essa tarefa, o que acontece não apenas devido à correria cotidiana, mas também porque sempre há algo novo a ser lido. Assim, se a pessoa parar para refletir sobre determinada informação, ela perderá as novas informações que vão surgindo e por isso que ela não o faz e deixa de agregar conhecimento. Posto isso, os indivíduos não são capazes de construir opiniões baseadas em fatos e acabam por cumprirem o papel de um analfabeto funcional, que lê e não compreende.
Além disso, existe outra explicação para que tanta informação não resulte em aprendizado que é a sua qualidade duvidosa. Nas redes sociais, onde passa-se a maior parte do tempo, as questões; além de serem abordadas de forma sucinta, já que é o que a demanda pede; também já vêm interpretadas segundo um ponto de vista. Com isso, o leitor não precisa pensar sobre elas, pois já vêm pensadas. Todavia, isso restringe a criação de um senso crítico e aliena o receptor, visto que ele não recebe dados imparciais e só vê um lado da história. Outro caso é a facilidade com que fake news são disseminadas, o que evidencia que o usuário não pesquisa sobre a sua veracidade antes de compartilhar e não reflete sobre o que ela diz. Assim sendo, dados tanto parciais quanto falsos são amplamente difundidos.
Tendo em vista as causas e consequências da não reflexão, é preciso que a sociedade pare de informar-se apenas superficialmente e busque mais qualidade. Para isso, além de ela diversificar as suas fontes a fim de não ser manipulada, o Ministério da Educação pode sugerir que, ao final de cada notícia, cada editora disponibilize um espaço para que a população comente o que ela acha sobre o assunto e interaja com outras opiniões. E, para incentivar isso, ela podem criar um ranking que compute a qualidade e relevância dos comentários. Dessa forma, todos serão estimulados a refletir e deixarão de ser sujeitos passivos do mundo ou, melhor dizendo, analfabetos funcionais da informação.