A internet facilitou a informação, mas restringiu a capacidade de reflexão

Enviada em 01/10/2021

O documentário “O dilema das redes” demonstra uma realidade assustadora de manipulação, controle emocional e vício possibilitados pela dispersão da internet no século XXI. A partir disso, vê-se que, em parte, o “sonho” de progresso virtual virou um pesadelo real, pois funções esplêndidas da internet ficam submersas em um mundo de entretenimento barato, como aponta o documentário citado, em que o objetivo das companhias é manter o usuário engajado com posts e propagandas comerciais. Em suma, a internet facilitou a dispersão da informação, mas restringiu a capacidade reflexiva dos indivíduos, porque estes se veem cercados de opções, mas, ao mesmo tempo, sentem-se paralisados por elas.

Nesse sentido, com o excesso de informações e a ausência de critérios, tem-se a receita para o desas-tre na era tecnológica, pois, como aponta Byung-Chul Han, em “Sociedade do cansaço”, liberdade con-siste em dizer ‘não’ ao supérfluo. Ademais, é comum, com tantas distrações, pessoas gastarem horas pesquisando a esmo por um assunto, dificultado pela presença de “hiperlinks”, criando-se, então, o estágio de hiperatenção que, como defende Han, não é algo positivo, pois a humanidade desenvolveu-se a partir da atenção profunda, distinta da falta de foco atual. Dessa forma, a disponibilidade de conhecimento alterou-se bruscamente: há muito conteúdo para cérebros que não evoluíram no mesmo ritmo, como defende Yuval Harari, “o H. sapiens nunca recebeu tanta informação dentro de tão pouco”.

Não obstante, o dilema da liberdade, segundo o filósofo Etienne de la Boétie, consiste em delegar ações individuais ao comando de um grande líder, pois os seres “médios” sentem-se oprimidos por tan-tas opções. No entanto, apesar de remeter ao século XVII, essa teoria se encaixa nas contradições hu-manas atuais, uma vez que preferimos dedicar tempo a distrações produzidas por outrem. Ainda, com a velocidade das informações, não há tempo para aprofundar em determinados assuntos, visto que há centenas de outros disponíveis, acarretando problemas psicológicos e comportamentais, como o medo constante de estar perdendo algo (fear of missing out) ou a liquidez baumaniana das relações humanas. Com isso, a capacidade reflexiva fica limitada à “correria” do cotidiano, o foco contemplativo e o tédio profundo, necessários para o processo criativo, são desestimulados em um mundo tão ágil.

Portanto, compete ao Ministério da Educação, em parceria com empresas de tecnologia, desenvolver alternativas para um consumo consciente de informações. Isso pode ser feito por meio de aulas espe-cíficas sobre como utilizar a internet de forma consciente, em que sejam ministradas formas práticas de limitar o limite diário dos aplicativos e como buscar fatos pertinentes, por exemplo. Também as pla-taformas podem melhorar a interface dos “apps”, separando entretenimento de educação, sem manipu-lar tanto os interesses dos usuários, a fim de que o senso crítico e o conhecimento sejam encorajados.