A internet facilitou a informação, mas restringiu a capacidade de reflexão
Enviada em 09/10/2024
Nos primórdios da filosofia, Sócrates reconheceu seu lugar de ignorância perante a imensidão do universo, resumido na frase “só sei que nada sei”. Séculos depois, nos deparamos com uma quantidade de informação inimaginável em qualquer outra época, e ao contrário do que pregava Sócrates, esse excesso de informação empoderou indivíduos que creem “saber de tudo”, já que têm todos os conhecimentos a um clique de distância. Esse fenômeno trouxe dois problemas: a desvalorização do saber científico e a redução na capacidade de reflexão.
Como primeiro exemplo, pudemos observar durante a pandemia de Covid-19 uma crescente desconfiança sobre os cientístas e profissionais da saúde, na mesma medida em que informações sem comprovação se disseminaram na internet e foram assumidas por muitos como verdades. Tivemos, por exemplo, o esgotamento do estoque de Invermectina, depois de circular na internet a informação de que ele seria eficaz na prevenção ao vírus. Pouco tempo depois, um estudo global publicado na revista Nature provou a ineficácia do remédio, ao mostrar que quase 80% dos brasileiros que tiveram Covid usaram o medicamento antes, tentando se prevenir, naturalmente sem sucesso.
O segundo problema é um fator agravante do primeiro — com cada vez mais informações disponíveis, as pessoas têm cada vez menos tempo e paciência para refletir sobre elas. Parece desnecessário fazer perguntas, quando já se tem todas as respostas. Dessa forma, como criticavam Adorno e Horkheimer nos trabalhos sobre a indústria cultural, cria-se uma sociedade de massa conformada e incapaz de criticar o status quo.
Se, como afirmava Einstein, são as perguntas que movem o mundo, a falta de reflexão a longo prazo trará graves prejuízos à sociedade. Portanto, faz-se necessário instituir medidas de conscientização e educação sobre o uso das informações disponíveis na internet. Tal ação pode ser executada com a criação, pelo Ministério da Educação, de um eixo formativo dentro da disciplina de projeto de vida, abrangendo os ensinos fundamental e médio. Dessa forma, há de se aprender, como ensinava Sócrates, que o conhecimento verdadeiro vem a partir do reconhecimento da dúvida.