A linguagem neutra em debate no Brasil
Enviada em 21/03/2022
A língua, conforme escrito por muitos autores, como Olavo Bilac, é viva e mutável, adequando-se às necessidades do homem e do meio. Assim, observa-se que, na atual conjuntura brasileira, apesar dessa reconhecida maleabilidade, o surgimento de novas variações linguísticas, como a linguagem neutra, tornou-se alvo de polêmicos debates no país. Nesse sentido, é preciso salientar que essas discussões têm origem na resistência à implantação da mesma por parte da população em geral e no comportamento excludente dessa.
Sob tal viés, cabe notar, primeiramente, que parte do debate envolve a relutância da sociedade às alterações à língua portuguesa, que a vê como imutável. Nessa perspectiva, é possível citar o caso recente da inclusão do pronome neutro no dicionário mais antigo dos Estados Unidos, evidenciando a possibilidade de readequação linguística para as necessidades sociais. Dessa forma, é notório que essa resistência é infundada à medida que, assim como no país citado, as alterações no idioma seriam adições à estrutura que afetariam pouco a língua como um todo, permitindo o uso habitual em conjunto com o inclusivo.
Além disso, ressalta-se também a pauta que envolve a necessidade de inclusão de todos os grupos sociais. Nesse contexto, tendo como referência a afirmação de Dostoievski de que “somos todos responsáveis por tudo, perante todos”, é evidente que o engessamento linguístico deve ser evitado para que todos os grupos se sintam acolhidos e respeitados. Dessa maneira, fica claro que a concepção da língua como entidade homogênea e invariável é excludente.
Portanto, medidas são necessárias para sanar os problemas discutidos. Por esse motivo, cabe à Academia Brasileira de Letras, instituição responsável pelo cultivo do português no país, em conjunto com a mídia, incentivar o uso da linguagem neutra. Tais ações podem se concretizar tanto por meio do reconhecimento, por parte da primeira, acerca do uso dessa, quanto pela sua utilização nos meios de comunicação por parte da segunda. Desse modo, esse esforço conjunto facilitaria a normalização dessa nova variação linguística por parte da população, permitindo que a mesma veja que a língua é realmente viva e que a mudança é benéfica para todos.