A manipulação de imagem nas redes sociais e seus malefícios à saúde mental
Enviada em 05/10/2020
No livro “O Espelho”, de Machado de Assis, é retratada a história de Jacobina, um alferes que defende a existência de uma alma exterior ao indivíduo, a qual é caracterizada pela construção de sua identidade a partir da forma como a sociedade o vê. Fora da ficção, é indubitável que o pensamento de Jacobina pode ser associado ao comportamento dos internautas nas redes sociais, visto que a manipulação das imagens no ambiente virtual tem sido cada vez mais frequente, o que pode acarretar malefícios à saúde mental dos usuários. Sob essa ótica, é primordial analisar a relação desse problema com a valorização das aparências e com a difusão de estereótipos relacionados à beleza nessa esfera.
É imperioso salientar, a princípio, que o ambiente virtual é marcado pelo enaltecimento das imagens por parte dos usuários, que tentam constantemente adquirir mais curtidas e seguidores para tornarem seu perfil mais chamativo. Isso pode ser visto em um episódio da série “Black Mirror”, no qual as pessoas são avaliadas a partir da qualidade de seus perfis nas redes sociais. Tal fenômeno é ratificado pelo conceito de “Sociedade do Espetáculo”, o qual foi proposto pelo sociólogo Guy Debord e evidencia que as relações interpessoais são caracterizadas pela valorização das aparências. Nesse sentido, a manipulação de imagens se apresenta como fator intrínseco a esse contexto, uma vez que, por meio dela, os internautas podem modificar o seu corpo para torná-lo mais atrativo ao público, favorecendo o aparecimento de problemas como a baixa autoestima.
Ademais, infere-se que a lógica capitalista é responsável pela difusão de padrões de beleza na esfera virtual, que têm o intuito de promover o consumo por parte dos usuários. Essa questão pode ser relacionada pelo conceito de “Indústria Cultural”, que foi postulado por pensadores da Escola de Frankfurt e revela que as grandes empresas utilizam as propagandas para homogeneizar o gosto dos indivíduos e, assim, obter o lucro máximo. Por conseguinte, a disponibilização de filtros e de editores de fotografias impõe estereótipos de beleza relacionados ao branqueamento e à realização de cirurgias plásticas, o que promove a frustração dos usuários que não se adequam aos padrões estabelecidos.
Depreende-se, portanto, que tanto o enaltecimento das imagens quanto a difusão de padrões de beleza agravam esse impasse. Posto isso, com vistas a subverter esse paradigma de manipulação das aparências na esfera virtual, urge que o Ministério da Educação crie, por meio de subsídios governamentais, campanhas publicitárias que serão expostas nas redes sociais. Essa medida deverá orientar os usuários acerca da relação entre essas modificações e o surgimento de problemas de saúde mental, como a baixa autoestima e a frustração. Somente assim, desconstruir-se-á a importância atrelada à alma exterior aos indivíduos, criando um contraste entre a realidade e a obra “O Espelho”.