A manipulação de imagem nas redes sociais e seus malefícios à saúde mental
Enviada em 18/10/2020
No filme “O Mínimo para Viver”, da plataforma “Netflix”, é narrado o cotidiano de uma jovem de 20 anos, chamada Ellen, que sofre de anorexia e bulimia devido à distúrbios de imagem. Fora da ficção, é fato que a realidade de Ellen pode ser relacionada à realidade social brasileira, uma vez que a mani-pulação de fotos, nas redes sociais, por filtros programados acarreta a decepções constantes com a autoimagem e, consequentemente, a nocivos impactos à saúde mental. Nesse preocupante contexto, é imprescindível compreender como a disseminação de um padrão ideário de beleza e a necessidade excessiva de aparentar perfeição contribuem para o uso vicioso de tais ferramentas.
Em primeiro lugar, é importante destacar que a transmissão exagerada de um padrão de beleza inatingível, por meio de comerciais, é um fator crucial ao analisar o problema. Nesse sentido, segundo os filósofos Adorno e Horkheimer, da Escola de Frankfurt, a disseminação de propagandas em massa tem o objetivo de criar uma sociedade de consumo padronizada, cujo aspecto marcante é a venda de produtos para a satisfação de necessidades iguais. Com efeito, a divulgação de um padrão estético inalcançável contribuiu não somente para o aumento das vendas de cosméticos, mas também para o sucesso de mecanismos filtradores de imagem que modificam a aparência pessoal de acordo com tal padrão. Por conseguinte, esses ajustes automáticos provocaram prejudiciais danos à autoestima, como distúrbios de imagem e a dificuldade de autoaceitação, dado que a aparência virtual destoa da real.
Além disso, a necessidade atual de transparecer perfeição favorece a persistência do impasse. Nessa lógica, no livro “Sociedade do Espetáculo”, do sociólogo Guy Debord, é explicitada sua teoria de que todas as pessoas vivem suas vidas como se fosse uma performance, tentando aparentar perfeição e oferecer o melhor “show”. Dessa forma, parte dos indivíduos, em busca de satisfação pessoal, aderiu aos filtros de imagem das redes sociais, tornando-se dependentes destes para postar fotos, visto que estariam mais próximos da “perfeição” descrita por Debord e disseminada pelos meios de comunicação. Assim, a manipulação de imagens gera uma nociva insatisfação com a aparência, o que corrobora a perpetuação do uso de tais filtros.
Portanto, é mister que o Estado e o Ministério Público criem um projeto de lei que será entregue à Câmara dos Deputados, com o objetivo de tornar obrigatório, nas escolas, o ensino crítico do uso da internet e das redes sociais. Isso deve ocorrer por meio de palestras e debates com profissionais especializados em computação e psicólogos, a fim de discutir os efeitos da manipulação de imagem na saúde mental individual para, assim, os formar um senso crítico nos jovens quanto ao uso dessas ferramentas. Diante disso, espera-se que a realidade de Ellen permaneça apenas na ficção.