A manipulação de imagem nas redes sociais e seus malefícios à saúde mental
Enviada em 26/10/2020
“O retrato de Dorian Gray”, romance de Oscar Wilde, traz uma reflexão filosófica na qual o protagonista, na tentativa de preservar sua beleza, faz um pacto para que uma tela envelheça em seu lugar. Apesar de ter sido escrito no século XIX, o livro reflete, de maneira análoga, uma realidade hodiernamente observada em tempos de redes sociais: a preocupação excessiva com a própria aparência e a busca por um padrão estético inexistente na vida real por meio da manipulação de imagens, com consequentes malefícios à saúde mental. Nessa perspectiva, antes de traçar estratégias para contornar tal problemática, faz-se mister analisar os fatores que contribuem para esse cenário.
Em primeira análise, é válido destacar que a edição de imagens prejudica a autoestima à medida em que estimula a comparação. Nesse viés, o sociólogo Pierre Bordieu, por meio do conceito de “Habitus”, defende que o padrão de comportamentos do indivíduo é socialmente construído. Desse modo, com a utilização das redes cada vez mais incorporada à rotina, a visualização constante de fotos manipuladas fazem com que as pessoas desenvolvam expectativas irreais sobre a sua própria imagem. Diante dessa premissa, um estudo feito pela Royal Society for Public Health, instituição de saúde do Reino Unido, confirma que usuários que passam muitas horas no Instagram, Youtube e Facebook são mais propensos a desenvolverem problemas de saúde mental como ansiedade e depressão.
Por conseguinte, a não aceitação do próprio corpo fomenta a procura por intervenções estéticas na vida real. Nesse contexto, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), a busca por procedimentos cresceu 25% no Brasil - na faixa etária de 13 a 18 anos, o aumento foi de 141%. Embora o desejo de melhorar aspectos corporais seja algo comum, a exposição à imagens editadas estimula uma procura indiscriminada por procedimentos que, muitas vezes, não seriam necessários, colocando em risco a integridade física e psicológica dos indivíduos.
Infere-se, portanto, a necessidade de se discutir sobre a manipulação de imagens e seus malefícios à saúde mental. Para isso, cabe ao governo, na figura do Ministério das Comunicações - órgão responsável por reger serviços como a internet -, regulamentar o funcionamento das redes sociais, por meio da elaboração de normas que orientem os desenvolvedores desses aplicativos a criarem ícones que indiquem quando as fotos forem editadas, a excluírem as opções de filtros, e a enviarem mensagens de alerta sobre os riscos da utilização excessiva, a fim de prevenir o uso descontrolado e minimizar a visualização constante de imagens editadas que gerem comparação e mal estar em relação à própria aparência. Assim, será possível fazer com que os usuários das redes sociais, ao contrário de Dorian Gray, não coloquem a busca pela beleza em primeiro plano.