A manipulação de imagem nas redes sociais e seus malefícios à saúde mental

Enviada em 26/10/2020

Na obra “Morte e vida Severina” os indivíduos são caracterizados pela falta de identidade proveniente das suas condições sociais. Paralelo a isso, pode- se perceber que na Era Digital, muitos usuários de redes sociais também passam pelo fenômeno de perda identitária, não mais pelas condições econômicas e ambientais como retratado na composição Moderna, mas pela exaltação midiática de padrões de beleza irreais e excludentes. Sob esse viés, é fundamental analisar os malefícios à saúde mental no âmbito da identidade e da representatividade causados pela manipulação de imagens nas redes sociais.

No que tange à conjuntura da saúde mental, a camuflagem e a omissão da verdadeira imagem das pessoas nas redes sociais por meio de filtros e edições criam seres humanos ideias de acordo com os padrões midiáticos, gerando frustração de indivíduos que não conseguem imitar essa falsa realidade. De acordo com o filósofo francês Jules Gaultier, as pessoas buscam imitar e ser outras, o que ele classificou como Bouvarismo. Esse fenômeno está diretamente ligado ao cenário de exposição exagerada de imagens fictícias nas redes de comunicação, pois os indivíduos buscam ser outros que nem ao menos existem, colaborando com o fenômeno de frustração e perca identitária que impulsiona transtornos mentais como baixa autoestima, ansiedade, anorexia e bulimia.

Além disso, a manipulação de imagens nas redes sociais também perpetua falta de representatividade de homens e mulheres reais, sobretudo no Brasil que possui uma população extremamente diversificada e miscigenada. Ao tomar como base o pensamento da estudiosa brasileira Márcia Tiburi, a partir do seu conceito de “Regime do conhecimento” que consiste na invisibilidade de grupos, nota-se que a falta de representatividade de pessoas reais, com “defeitos” e “imperfeições” colabora com a insegurança das pessoas se mostrarem nos meios de comunicação tal como são. Diante desse prisma social, é evidente que a situação de hesitação quanto a própria imagem ultrapassa as barreiras das redes sociais, possuindo reflexos na saúde mental dos indivíduos.

Logo, pode-se inferir que a manipulação de imagens nas redes sociais impulsiona perda de identidade e representatividade, o que gera danos à saúde mental. Diante disso, urge que as o Ministério da Saúde, em parceria com “startups” como o Facebook e o Instagram, incentivem a exposição da beleza pessoal de cada indivíduo tal qual como ela é, por meio de campanhas e desafios mensais de incentivo a autoestima, desfazendo a lógica de necessidade de filtros ou de efeitos para tornar o indivíduo ideal e, consequentemente, atenuando transtornos mentais ligados a autoimagem. Afinal, cada ser é único e merece viver longe da moral de invisibilidade dos Severinos.