A manipulação de imagem nas redes sociais e seus malefícios à saúde mental
Enviada em 10/11/2020
Na mitologia grega, o belo Narciso, ao contemplar sua imagem refletida na margem de um rio, afoga-se em si mesmo. De maneira análoga, no Brasil, o uso das redes sociais e das ferramentas de modificação visual que elas oferecem têm influenciado padrões comportamentais baseados na supervalorização do Eu. Sob tal ótica, o uso indiscriminado e passivo desses recursos manipula a liberdade humana e afeta o desenvolvimento saudável da identidade do indivíduo. Por isso, torna-se necessário o debate acerca desses fatores.
Em primeiro lugar, de acordo com Sartre, o homem é condenado a ser livre. Nessa lógica, a disseminação dos filtros e efeitos virtuais que alteram a imagem do indivíduo, indiretamente, coíbem o princípio fundamental da liberdade humana, uma vez que evocam padrões de beleza e, consequentemente, influenciam a atitude dos usuários. Dessa forma, instaura-se a lógica do mercado a partir do uso das mídias sociais, pois o indivíduo busca cada vez mais atingir a imagem de perfeição propagada pelos influenciadores digitais, e, para isso, recorre ao consumo dos mais variados produtos e procedimentos estéticos que são apresentados nesse meio. Assim, segundo Erving Goffman, a individualidade é mortificada para se unir ao comportamento das massas.
Outrossim, é válido ressaltar que, conforme Freud, a alteridade é a percepção de si mediante sua projeção no outro, sendo, portanto, imprescindível para a construção do Eu. Desse modo, ao utilizar os recursos oferecidos pelas redes sociais para maquiar a realidade e assemelhar-se, cada vez mais, ao outro, o ser humano vivencia a experiência do colapso de sua identidade e busca reintegrar-se com base nessas imagens virtuais, fictícias, editadas e perfeitas. Consequentemente, surgem os efeitos colaterais na saúde mental, tais como ansiedade, depressão, transtornos de personalidade, entre outros.
Fica claro, portanto, que utilizar as redes sociais e suas ferramentas para as imagens requer uma postura crítica do usuário. Para tanto, a fim de minimizar a problemática, faz-se necessário que as escolas atuem na orientação quanto ao uso saudável dos meios midiáticos por meio de palestras e atividades pedagógicas que visem a formação do senso crítico dos seus alunos. Ademais, ONGs e influenciadores, por exemplo, do Instagram, podem coadjuvar ampliando essa discussão no espaço cibernético, mediante a criação de conteúdo que traga a realidade tal como ela é, sem edições, dos seus usuários. Enfim, a partir dessas ações, o mito de Narciso não mais refletirá a contemporaneidade.