A manipulação de imagem nas redes sociais e seus malefícios à saúde mental

Enviada em 01/12/2020

Madame Bovary, personagem literária criada pelo escritor realista Gustave Flaubert, comete suicídio por descobrir que a imagem criada e manipulada por ela a respeito do marido era incompatível com os comportamentos reais do parceiro. Paralelo a isso, faz-se possível relacionar a obra ao impacto causado pelas redes sociais que, ao emergirem como veículos de idealizações e permitirem o controle de imagens que desvalorizam as características reais de uma pessoa, manifestam-se no valor excessivo dado à beleza e na frustração pessoal, ambos culminando na decadência da saúde mental.

Em primeiro lugar, é importante relacionar a demasiada preocupação estética à manifestação de um lado apolíneo que, além de valorizar a simetria e a perfeição, leva as pessoas à deformação física, por meio de ferramentas tecnológicas, na busca por um perfil inverossímil mas condizente com as convenções do mundo digital. Isso porque, de acordo com o filósofo Michel Foucault, as pessoas representam corpos dóceis que são moldados por uma episteme, um conjunto de saberes pertencentes a determinada época, nesse contexto representados pela supervalorização da rede social na interpretação do indivíduo em comunidade.

Como consequência disso, nota-se que a falha humana na manipulação de imagens leva à frustração e à culpa pela incapacidade de competição em um mundo virtual que, por ter sido artificialmente construído e cada vez mais usado democraticamente, apresenta a beleza ideal mas, ao mesmo tempo, intensifica a dificuldade de seu alcance. Isso torna as pessoas alienadas à vida digital e escravas de filtros e efeitos de fotos que modifiquem o aquém em nome de um além. Exemplo disso é a representação da alienação de Narciso à sua beleza e a consequência trágica sofrida pelo garoto por sobrepor a imagem à sua essência real.

Infere-se, portanto, que essa problemática, além de ir de encontro à concepção dos filósofos empiristas de que o belo é relativo, demonstra a insegurança do ser humano e sua insistência na tentativa de construir um perfil digital não condizente com sua realidade. Nesse sentido, faz-se necessário estimular a atuação dos dois pilares socioeducacionais, escola e governo, para a inserção, nos bairros, de programas que, associados ao trabalho de psicólogos, estimulem a autovalorização estética do indivíduo e a pressão sobre as redes sociais a fim de extinguir ferramentas que deturpam a imagem real humana. Apenas dessa forma será possível reconhecer a internet como um mundo intelectualmente produtivo, desde que impeça a idealização da beleza e estimule a presença do usuário em sua essência e verdade.