A manipulação de imagem nas redes sociais e seus malefícios à saúde mental

Enviada em 08/12/2020

O documentário “Dilema das Redes”, produzido pela Netflix, traz uma denúncia às motivações capitalistas existentes por trás de grandes aplicativos, como o Facebook e o Instagram, que transformam seus usuários em “produtos”, por meio de uma organização individualizada dos “feeds” e da parceria com grandes empresas de anúncios. Nessa perspectiva, percebe-se que a manipulação de imagem nas redes sociais, intimamente ligada aos interesses desses anunciantes - já que gera insegurança e a consequente busca por produtos que atenuem esse sentimento -, traz malefícios à saúde mental, tais quais: a ansiedade e o prejuízo à formação crítica dos internautas.

Em primeira análise, é evidente que a manipulação de imagens nas redes sociais agrava a ansiedade - transtorno que atinge, hoje, cerca de 10% da população brasileira, segundo a Organização Mundial de Saúde. Isso porque, a exemplo do conceito de “hiperrealidade” da filosofia contemporânea, observa-se que alguns “filtros” de aplicativos como o Instagram distorcem a realidade física dos cibernautas, superdimensionando características que são percebidas como qualidades pelo senso comum. Portanto, infere-se que a manipulação das imagens potencializa uma angústia e inquietação que são típicas do transtorno de ansiedade, uma vez que gera nos usuários - quando “offline”- a sensação de não-pertencimento ao próprio corpo e a constante comparação com outros internautas.

Em segunda análise, vale salientar que a manipulação de imagem nas redes sociais traz como malefício à saúde mental, ainda, uma pobre formação crítica dos usuários. Segundo o filósofo francês Michel Foucault, por exemplo, o ser humano é um ser “biopsicossocial”, ou seja, dotado de diferentes aspectos que compõem a sua complexidade. Apesar disso, percebe-se, no contexto digital, a supervalorização da imagem física, corroborada pela modificação das imagens, visto que essa objetiva a criação de corpos ideais. Isso acaba desviando a atenção dos internautas para o aspecto “bio” em detrimento do “psicossocial” - e tolhe-os, assim, do desenvolvimento de habilidades mentais responsáveis pela construção de uma visão crítica e completa da realidade humana.

Portanto, a manipulação de imagem nas redes sociais e seus malefícios à saúde mental configuram pautas de extrema importância e precisam ser amplamente debatidas. Para tanto, é necessário que o Estado brasileiro, em conjunto com as instituições de ensino e com o apoio do Ministério da Tecnologia, torne-se pioneiro na conscientização dos impactos gerados pela criação dessa “hiperrealidade”, por meio de palestras e discussões em sala de aula, com a presença de profissionais das áreas de sociologia, filosofia e tecnologia, com o objetivo de construir uma geração que possua uma visão mais ampla e sólida da fisicalidade humana, capaz de ultrapassar os limites imagéticos do mundo virtual.