A manipulação de imagem nas redes sociais e seus malefícios à saúde mental

Enviada em 16/12/2020

Numa sociedade na qual predomina a “banalização o mal”, descrita pela filósofa Hannah Arendt como a normalização de ações que acarretam o mal-estar de determinadas pessoas, são impostos padrões de beleza artificiais e inatingíveis. Para alcançá-los, alguns indivíduos recorrem à manipulação da auto-imagem nas redes sociais, prática que é extremamente danosa à saúde mental e gera consequêcias como depressão decorrente da falta de autoestima e fomento a atitudes discriminatórias.

Em primeira análise, é valido ressaltar que, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde, 16,3 milhões dos adultos brasileiros em 2019 sofrem de depressão, dado deveras alarmante, associado à manipulação da imagem na medida em que a ausência de autoestima é um dos potenciais fatores geradores da doença. No âmbito das redes sociais, a excessiva exaltação da beleza considerada padrão, a qual exige intervenções cirúrgicas, procedimentos estéticos perigosos e, principalmente, efeitos no momento da postagem, provoca frequentes comparações consigo mesmos por parte dos internautas. A fim de se aproximarem do modelo que proporciona aceitação, muitos recorrem aos filtros e edição de imagens para “disfarçar os defeitos físicos” e, no momento em que isso se torna um vício, a pessoa se recusa a conviver com sua aparência real, chegando a desenvolver transtornos psicológicos.

Em segunda análise, o estímulo à discriminação contra aqueles que fogem ao padrão estético  imposto também é decorrente da excessiva edição de imagens nas redes sociais e afeta a saúde mental. Isso é um exemplo da chamada “docialização dos corpos”, fenômeno explicado, segundo o filósofo Michel Foucault, pela imposição de determinadas normas sociais, a fim de tornar submisso o indivíduo para tornar mais fácil sua manipulação, e pela punição dos que não as seguem. Dessa forma, quando um internauta opta pela não utilização dos filtros para “melhoramento” de sua aparência, a sociedade o vê como inadequado à exposição virtual, sentindo-se no direito de julgá-lo através de humilhações públicas , o que abala a autoestima da vítima e abre espaço para depressão e ansiedade.

Tendo em vista quadro tão perigoso, medidas são necessárias para modificá-lo. É imperativo que a plataforma que administra os efeitos de imagem nas redes sociais restrinja seu uso exagerado, através da limitação a um determinado número semanal de fotos em que são utilizados aqueles que simulam uma beleza padrão, para que os internautas não desenvolvam a não admissão de sua aparência sem esse tipo de edição. Também é preciso que as pessoas mais influentes virtualmente atuem na aceitação de todos os tipos de beleza, promovendo sorteios nos quais a condição para participar seja a marcação de amigos que devem postar fotos ao natural, assim como o participante, como forma de desestimular a discriminação àquilo que representa a realidade estética de cada indivíduo.