A manipulação de imagem nas redes sociais e seus malefícios à saúde mental
Enviada em 17/12/2020
Na mitologia grega, Narciso ficou tão obcecado com sua própria imagem, refletida nas águas de um riacho, que esqueceu de se alimentar. Esse cenário serve de metáfora para compreender os perigos psicológicos da manipulação de autorretratos nas mídias sociais, já que, diferente do reflexo do antigo herói, os efeitos das projeções digitais podem ser ainda mais nocivos. Essa lamentável situação advém de uma profunda fuga da realidade que produz concepções equivocadas acerca das consequências inevitáveis do tempo, provocada pelas exigências do capitalismo e de uma cultura perfeccionista.
Nesse contexto, é importante perceber que o sistema econômico vigente, aliado aos prazeres de imaginar-se mais sublime do que o real, gera a necessidade de modificar a própria imagem nas redes sociais. Isso ocorre porque, uma vez que o capitalismo visa o lucro acima do bem-estar dos indivíduos, as empresas são estimuladas a destacar ideais de beleza praticamente impossíveis de serem atingidos, com o objetivo de maximizar a venda de produtos e serviços que prometem esse fim. Como resultado disso, muitos internautas se afligem, no melancólico desejo insatisfeito de Narciso, ou se esforçam, diariamente, como no infrutífero trabalho de Sísifo, quando não atingem esse ideal. Esse fenômeno dantesco é explicado no documentário “O Dilema das Redes”, que denuncia o modo como usuários são estimulados a mudar sua aparência para conquistar engajamento e doses de dopamina.
Ademais, é fundamental reconhecer que o costume de culpabilizar as “imperfeições”, somado à vontade de esquecer as “calúnias” do espelho, promove o uso de selfies retocadas nas plataformas virtuais. Isso acontece porque a cultura perfeccionista faz com que os seres humanos nunca se sintam suficientes e corajosos para assumir as consequências da finitude, tal como rugas, marcas de expressão e cabelos brancos. Desse modo, as pessoas sofrem porque tratam como antinatural o que é perfeitamente normal, em oposição ao “tudo o que é natural é belo”, defendido pelo filósofo Marco Aurélio em suas Meditações. É por esse motivo que o uso de filtros em retratos se tornou tão comum na internet, ao mascarar e depreciar a realidade para evitar a lembrança de que a morte se aproxima, como se isso fosse um mal.
Portanto, é evidente que a fuga da realidade, potencializada por ganâncias comerciais e ideais sobre-humanos, incentiva o perigoso uso indiscriminado de maquiagem digital. Diante desse problema, cabe ao Governo Federal criar um Plano Nacional do Bem-Estar Digital, por meio de um decreto federativo, com a finalidade de cuidar da saúde emocional do cidadão. De tal modo, esse Plano deve recomendar a criação de uma agência reguladora para combater os excessos do capitalismo nas redes sociais, a fim de coibir a supervalorização das aparências e fins trágicos semelhantes ao de Narciso.