A manipulação de imagem nas redes sociais e seus malefícios à saúde mental
Enviada em 05/09/2021
Como afirmou Alfred Hitchcock, “A televisão tem feito muito pela psiquiatria ao espalhar informações sobre ela, bem como ao contribuir para a necessidade dela”, o cineasta se espantaria caso presenciasse como a internet assumiu, de maneira pavorosa, o posto que ocupavam os televisores. Os filtros, um dos mais recentes exemplos dessa contribuição, ganharam visibilidade por democratizarem a ilusão efêmera de um “corpo perfeito”, por outro lado essa popularidade banalizou a realização de procedimentos estéticos e manteve padrões de beleza estereotipados. Portanto, é imperativo uma discussão aprofundada acerca do assunto que evite a disseminação desses malefícios.
A princípio, é evidente o uso de ferramentas digitais para “reparos” de imagem como causa da banalização das cirurgias plásticas. Consoante a isso, é possível citar os estudos feitos pela Dove que mostra que 84% de adolescentes brasileiras aplicam filtros em fotos porque se sentem inseguras em relação a seus corpos, e pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética que aponta o Brasil como país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo. Esses dados revelam como esse instrumento presente no dia a dia de muitos brasileiros contribui para que estes procurem uma solução nas salas de cirurgia para suas, assim rotuladas, “imperfeições”.
Ademais, ressalta-se como os filtros reforçam o padrão de beleza europeu e agridem a saúde mental de usuários negros. Muitos são os relatos de pessoas não-brancas que perceberam como filtros do Instagram e Snapchat, deixam suas peles acinzentadas ou esfumam o cabelo crespo. Esse tipo de “ajuste” faz com que preconceitos sejam ainda mais acentuados e com que seja incumbido nesses indivíduos a crença de que suas características físicas não passam de erros que devem ser concertados. Esse fenômeno fez com que diversos efeitos de imagem fossem retirados de mídias como FaceApp e Facebook através do “racismo velado”.
Por fim, salienta-se a importância das entidades públicas e privadas para a mitigação dos males previstos pelo uso dos filtros. Inicialmente, é dever do Ministério da Educação a reeducação da população, em especial a de adolescentes, quanto a realização de procedimentos estéticos através de aulas interdisciplinares que envolvam acompanhamento socioemocional, a fim de diminuir o número de cirurgias plásticas e aumentar a aceitação corporal. Aliado a isso devem estar as empresas que produzem os filtros, para que haja uma maior inclusão de indivíduos não-brancos nos bancos de dados dessem aplicativos. Somente assim a internet passará a contribuir de maneira um pouco mais positiva para a saúde mental dos que a utilizam.