A mobilidade urbana no Brasil
Enviada em 11/11/2020
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de perda de visão que atinge toda uma comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença do Estado e de parte da população frente à falta de mobilidade urbana. Diante do exposto, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que circundam essa questão no país.
Antes de tudo, pontua-se que o poder-público tem se mostrado negligente ao permitir esse impasse. Como prova disso, vê-se a omissão das instituições governamentais perante a falha no processo de assistência, posto que falta investimento financeiro para promover políticas eficientes de transporte público, o que tem influenciado que um segmento dos indivíduos abandonem esse modal em detrimento do transporte individual, diminuindo a fluidez do sistema viário e comprometendo o direito à cidade dos cidadãos. Desse modo, certifica-se que o bem-estar de toda a coletividade não tem sido assegurado, demonstrando a ruptura dos princípios presentes na Constituição Federal de 1988.
Ademais, observa-se que uma parcela da sociedade tem aceitado a falta de mobilidade urbana, o que denota uma banalização do mal. Confirma-se isso pela apatia de alguns indivíduos diante da ausência de elaboração das leis existentes, visto que falta efetivar o ordenamento jurídico que prevê a redução da emissão de gases de efeito estufa ao ambiente, o que é intensificado pela falta de incentivo ao uso de transportes ativos, como, por exemplo, bicicletas e patinetes. Constata-se, dessa forma, que a naturalização desse fato corrobora as estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo do errado é resultado de um processo de massificação social.
Evidencia-se, portanto, que a falta de mobilidade urbana deve ser combatida. Para isso, é necessário que o Poder Executivo promova um maior direcionamento de verbas destinadas a elaboração de um plano de mobilidade nos municípios, o que pode ser feito por meio da construção de faixas de trânsito exclusivas para transportes coletivos, tornando-os mais práticos à população, com o intuito de evitar a adoção do modal individual por esses. Ainda, é fundamental que organizações não governamentais, mediante a atuação de veículos midiáticos, promovam campanhas que estimulem a mobilização coletiva para que se exija do Estado a segura implementação da legislação, com o objetivo de garantir a dinamização dos meios de transportes adequados a manutenção do equilíbrio ambiental. Sendo assim, seria possível restringir a negligência social à obra de José Saramago.