A necessidade de combater os altos índices de jovens que nem estudam nem trabalham no Brasil
Enviada em 11/05/2020
É, em um contexto definido pelo professor e economista indiano Amartya Sen como de extrema vulnerabilidade socioeconômica, marcado tanto pela opressão como pela segregação, que cresce segundo o Banco Mundial, o número de jovens que nem trabalham e nem estudam para 11 milhões no País. Sob esse viés, tendo em vista a condição de inferiorização e subserviência à que essa população, vítima da omissão do Estado democrático quanto à garantia de direitos fundamentais, é submetida, bem como a dificuldade de interação desta no espaço sociopolítico, comprometendo o exercício de cidadania, é clara a necessidade de políticas visantes à protagonização e à autonomia desse grupo, em sua heterogeneidade, para a superação da subcidadania que maximiza desigualdades históricas.
Nesse âmbito, sob a ótica do sociólogo Antônio de Oliveira, depreende-se que a mentalidade de inferiorização da “geração nem-nem”, culpabilizando-a pela ineficiência do Estado na garantia de qualidade de vida, a qual abrange a formação cognitiva e psicossocial, consolidou o “complexo do sujeito da negação”, que, ao reafirmar a improdutividade do indivíduo, torna-o subserviente, e, portanto, vulnerável ao cenário descrito por Sen, sustentado pelo subemprego e pela marginalização. Em decorrência disso, percebe-se que esse fenômeno torna-se mais um intrumento de reprodução de desigualdades, prova disso é que, conforme a Revista Educação, 70% das pessoas não engajadas são de baixa renda, tornando-se, na concepção do escritor Dimenstein, cidadãos de papel. Logo, nota-se a necessidade de democratizar oportunidades para o alcance de justiça social e, assim, da equidade.
Outrossim, é preciso reiterar, baseando-se na perspectiva do jurista Dalmo Dallari, que, à medida que jovens e adultos são reconhecidos como sujeitos de direitos e, por isso, dotados da necesidade de participação no espaço politico-social, a negação da interação no meio de trabalho e de estudo dificulta esse processo de interferência na sociedade, o que tanto marginaliza aqueles 11 milhões de indivíduos como consagra a injusta “cidadania de papel”. Posto isso, partindo da dialética crítica freiriana, percebe-se que essa intencional desprotagonização dos indivíduos impede a “ação tranformadora”, capaz de alterar a realidade da indiferença e da exclusão por meio da atuação não individual, mas coletiva.
Desse modo, tendo em vista os aspectos negativos ao exercício de cidadania do fenômeno “nem-nem”, cabe ao Ministério da Educação propor projetos interdisciplinares, desenvolvidos por professores e psicopedagogos ao longo do processo de formação cidadã, capazes de desenvolver criticidade e competência cognitivas por meio do diálogo e da interação, a fim de promover, além de autonomia, qualificação e descontrução de preconceitos, o oferecimento de oportunidades equânimes. Assim,o enfrentamento às desigualdades superará, verdadeiramente, a subcidadania descrita do Dimestein.