A necessidade de combater os altos índices de jovens que nem estudam nem trabalham no Brasil
Enviada em 02/12/2020
Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de perda de visão que atinge toda uma comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença do Estado e de parte da população frente ao elevado índice de jovens que não estudam e não trabalham. Diante do exposto, cabe analisar os aspectos políticos e sociais que circundam essa questão no país.
Antes de tudo, pontua-se que o Poder Público tem se mostrado negligente ao permitir o crescimento desse índice. Como prova disso, vê-se a omissão das instituições governamentais perante à falha no processo de assistência, posto que falta investimento financeiro para possibilitar a implantação de cursos técnicos vinculados ao ensino médio regular, o que prejudica a qualificação e o acesso dos jovens ao mercado de trabalho, bem como a consolidação do direito à educação desses. Desse modo, certifica-se que o bem-estar de toda a coletividade não tem sido assegurado, demonstrando a ruptura dos princípios presentes na Constituição Federal de 1988.
Ademais, observa-se que uma parcela da sociedade tem aceitado a elevada taxa de jovens inativos, o que denota uma banalização do mal. Confirma-se isso pela apatia de alguns indivíduos diante da ausência de fiscalização das leis, visto que não se tem inspecionado a efetivação do ordenamento jurídico que prevê a contratação de jovens como aprendizes por empresas, comprometendo a oportunidade de capacitação profissional deles. Constata-se, dessa forma, que a naturalização desse fato corrobora os estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo do errado é resultado de um processo de massificação social.
Evidencia-se, portanto, que é preciso combater o elevado índice de jovens que não estudam nem trabalham. Para isso, é necessário que o Poder Executivo promova um maior direcionamento de verbas ao Ministério da Educação, o que pode ser feito por meio da alteração da grade curricular obrigatória do ensino médio, implementando cursos profissionalizantes ao currículo escolar dos alunos, a fim de assegurar que os jovens saiam da escola qualificados ao mercado de trabalho. Ainda, é fundamental que organizações não governamentais, mediante atuação de veículos midiáticos, promovam campanhas que estimulem a mobilização coletiva para que se exija do Estado a segura fiscalização da legislação em vigor, visando a garantia do acesso à capacitação profissional aos jovens. Sendo assim, seria possível restringir a negligência social à obra de José Saramago.