A necessidade de debater as doenças mentais
Enviada em 13/08/2018
O conceito de ação social relacionada a valores, de Max Weber, consiste em explicar uma atitude elaborada de acordo com as crenças e valores de um coletivo. Dessa forma, podemos relacionar tal concepção com a psicofobia (conduta discriminatória contra pessoas com transtornos mentais), que se mantém vigente na sociedade brasileira por meio de resquícios de princípios históricos, o que contribui para o agravamento do tabu acerca do assunto e estigmatização e isolamento dos doentes mentais.
O primeiro hospital psiquiátrico do Brasil foi o Hospício D.Pedro II, instalado no Rio de Janeiro em 1852. Em 1890, os pacientes foram caracterizados patologicamente como escória da sociedade e isolados dentro do espaço manicomial dos demais núcleos sociais, que intensificou o estigma preconceituoso quanto a esses indivíduos por sua condição mental. Tais paradigmas estendem-se até os dias atuais, ao cercear a participação social e exercício da cidadania, como no caso da jornalista Shaonny Takaiama, que em 2017 foi aprovada para uma vaga empresarial, mas, ao revelar que era diagnosticada com transtorno bipolar e borderline durante o exame admissional, foi desclassificada.
Contudo, grupos preocuparam-se com a situação da saúde nacional e eclodiram em 1970 a Reforma Psiquiátrica no Brasil, que evocava uma mudança na gestão das práticas psiquiátricas em defesa da saúde coletiva. Como desdobramento dessa mobilização, foi aprovada em 2001 a Lei Antimanicomial, que postula a substituição de manicômios por CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), a fim de ofertar atendimento humanitário e ressocializador para doentes mentais em contrapartida ao anteriormente fornecido. No entanto, apesar dos avanços estruturais, o debate em torno de psicopatologias na sociedade permaneceu sem evidência, que colaborou para a manutenção da construção social preconceituosa sobre esses indivíduos, que têm vergonha de procurarem ajuda, escondem-se da sociedade com medo da exclusão e são impedidos de desfrutarem de relacionamentos saudáveis ou de conquistarem uma vaga de emprego, em virtude do isolamento. Destarte, é necessário que o Ministério da Educação, juntamente com o Ministério da Saúde, mediante o direcionamento de verbas realizem um projeto de desmistificação acerca das doenças mentais por meio de fins de semana culturais na urbe e nas escolas, com palestras ministradas por psicólogos, psiquiatras e historiadores, com o fito de romper padrões e preconceitos que excluem os diagnosticados da sociedade e corroboram para a privação da garantia de direitos humanos como a liberdade e a não discriminação à esses indivíduos, na busca de uma sociedade mais justa e igualitária. Espera-se, por meio dessa ação, que a ação racional relacionada a valores não consolide a exclusão, mas a reintegração, a inclusão e o respeito.