A necessidade de debater as doenças mentais
Enviada em 22/07/2018
O cemitério dos vivos
Em Batman, o Asilo Arkham é para onde são destinados aqueles com doenças mentais; lá deveriam obter tratamento adequado objetivando reintegrarem-se à sociedade, entretanto a ficção revela o lado sombrio de tal instituição, a qual visa a isolá-los socialmente e a violar os seus direitos fundamentais. Fora dessa, a ausência de debates acerca das doenças mentais e a omissão perante os que sofrem com as mesmas, permitira (caso do Hospital Colônia de Barbacena) e permitem que o explanado projete-se também na realidade.
Ademais, se, em Batman, Arkham funciona como um depósito dos indesejados socialmente, Lima Barreto mostra em sua obra que, no Brasil, cultivava-se espécie de ‘‘cemitério dos vivos’’- porque aqueles com doenças mentais eram abandonados em manicômios, onde recebiam o mínimo para sua sobrevivência. Atualmente, a ONU aponta o aumento da incidência das doenças psíquicas, dada a falta de tratamentos adequados; considerando que, para a mesma, saúde perpassa o completo bem-estar mental e social, tais distúrbios deveriam, no mínimo, ser discutidos. Contudo, o inverso ocorre: há a perceptível banalização das doenças psíquicas, assegurando, de um lado, a vacância de debates, pois não se aceita que como qualquer outro órgão o cérebro pode adoecer, e por outro há o excesso de diagnósticos e medicalização.
Assim, no contexto de parco debate, do controle psíquico pela química medicamentosa e pela internação forçada, surge a antipsiquiatria. Essa possui abordagem pouco ortodoxa: busca humanizar o tratamento das doenças mentais, debatê-las com a sociedade e extirpar o senso determinista que acredita que tais distúrbios são o que caracterizam os indivíduos que as possuem. Dessa maneira, não há razão para vê-los como os vilões de Batman, ou mantê-los no cemitério dos vivos de Lima Barreto, mas sim despertar a sociedade para a história recente de Barbacena, para como sentem-se os que convivem com doenças mentais e para o fato das mesmas incidirem cada vez mais e continuarem todos silenciados e envergonhados, como se elas não existissem e demandassem discussões.
Em síntese, faz-se mister que, por meio de sanção legal, o Estado crie um Projeto Público de Saúde Mental, envolvendo hospitais, universidades e escolas, o qual objetive, também, iniciar debates sobre doenças mentais com a sociedade, buscando elucidá-las - para tanto, dando voz aos psiquiatras e aos indivíduos que com elas convivem. Além disso, ao MEC e ao Ministério da Saúde, em parceria, cabe a promoção de Campanha, nas redes sociais, que divulguem dados e relatos a cerca do referido tema incitando à reflexão e ao debate, ao fim da banalização e da ortodoxia nos tratamentos.