A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 08/07/2018

De um simples moinho de vento, ao imaginário de dragões - essa é a cena épica da obra “Dom Quixote de La Mancha”, do autor Miguel de Cervantes, na qual são frisadas as alucinações do personagem-título, incompreendidas, muitas vezes, por seu companheiro Sancho Pança. Hodiernamente, essa situação caricaturada é preocupante, visto que a incompreensão do corpo social no que diz respeito aos distúrbios neurológicos associa-se diretamente à dificuldade na inserção social do indivíduo acometido tal como ao índice cada vez menor de pessoas que submetem-se a tratamentos neurológicos, sendo necessário, dessa forma, um maior debate sobre essa realidade.

A priori, é notória a necessidade de debater o tema a fim de promover a inclusão do indivíduo. Nesse viés, destaca-se Sheldon Cooper, personagem principal do seriado americano “The Big Bang Theory”, casado, com diversas amizades e portador de vários sintomas do espectro autista, mostrando que as limitações impostas pela doença mental não o impedem de estabelecer vínculos sociais. Entretanto, a abordagem insuficiente e o pouco conhecimento por parte da população no que diz respeito aos transtornos psicológicos são fatores que dificultam a criação desses laços, uma vez que, por apresentarem uma visão estereotipada ou não saberem lidar com indivíduos portadores de distúrbios, muitos são os que se afastam dessas pessoas.

Em segunda instância, convém ressaltar que a taxa de brasileiros com transtornos mentais é crescente e preocupante. Nesse âmbito, pesquisas da Organização Mundial da Saúde mostram que o Brasil ocupava posição de destaque entre os países com maiores índices de depressão e transtorno de ansiedade no ano de 2017. Contudo, segundo a mesma fonte, menos de 10% dos indivíduos que precisam de tratamento submetem-se a ele por conta do tabu e preconceito ainda existentes com os portadores de distúrbios mentais, aumentando, dessa forma, a chance da ocorrência de práticas que precisam ser extintas, como o suicídio.

Urge, portanto, a adoção de medidas que solucionem o impasse. Destarte, cabe à mídia, como  formadora de opinião, abordar os diversos tipos de doenças mentais em programas e propagandas televisivas, bem como sobre a necessidade de tratá-las, de modo a familiarizar a população com as características das síndromes, a fim de incentivar o relacionamento entre os indivíduos. Outrossim, cabe ao Ministério da Educação estabelecer a abordagem de doenças psicológicas como matéria obrigatória desde a educação fundamental, com o fito de quebrar os paradigmas acerca da abordagem dos distúrbios na sociedade atual. Quem sabe assim, as barreiras enfrentadas por esses indivíduos deixem der enorme dragões e assemelhem-se, cada vez mais, a simples moinhos de vento.