A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 12/07/2018

Alienistas do Século XXI

Simão Bacamarte, personagem de Machado de Assis na obra “O Alienista”, representa a visão crítica do autor quanto à obsessão pela análise psicológica no contexto da extrema evolução científica do século XIX. No entanto, apesar de ser marcada pela típica ironia machadiana, a temática abordada na obra mostra-se extremamente relevante no contexto atual, visto que a falta de discussões acerca dos distúrbios psiquiátricos é um fator que tem agravado e perpetuado os problemas resultantes do isolamento social e do pouco acesso ao tratamento médico.

A priori, convém ressaltar que a ideia de liquidez das relações sociais, defendida pelo filósofo Bauman em sua obra “Modernidade Líquida”, é cada vez mais notória na sociedade atual. Nesse viés, a fragilidade dos vínculos sociais, percebida pela pouca intensidade e durabilidade desses, dá origem a um sentimento de solidão constante, que contribui para o elevado número de casos de distúrbios mentais no país. Prova disso é que, segundo dados da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, o isolamento social está diretamente relacionado a quase 50% dos casos de depressão registrados anualmente, que aumentaram em 18% desde o ano de 2005.

Em segunda instância, se por um lado houve uma elevação na taxa de brasileiros com transtornos mentais, por outro, a busca por tratamento não apresentou o índice esperado. Nesse âmbito, pesquisas da Organização Mundial da Saúde mostram que o Brasil ocupava a quinta posição entre os países com maiores números de portadores de distúrbios psicológicos no ano de 2017. Contudo, segundo a mesma fonte, menos de 10% dos indivíduos que precisam de tratamento submetem-se a ele, por fatores relacionados, principalmente, à falta de políticas públicas voltadas para a oferta de atendimento a doenças psiquiátricas a baixo custo. Sendo assim, essa deficiência faz com que a terapia esteja fora do alcance dos brasileiros que não têm condições de pagar pelas consultas e medicamentos.

Mediante o exposto, faz-se necessário um maior debate, a fim de buscar alternativas que viabilizem a resolução do problema vigente. Destarte, é conveniente que o Executivo Federal, por meio do Ministério da Saúde, crie núcleos de atenção psicológica primária, por meio da contratação de profissionais qualificados, que atendam pelo Sistema Único de Saúde e estimulem um tratamento baseado na comunicação entre pacientes diagnosticados com quadros semelhantes, de modo a favorecer a solidificação das relações interpessoais e diminuir a incidência dos transtornos mentais entre a população nacional. Quem sabe, assim, a preocupação com a mente humana não fique restrita ao Realismo do século XIX.