A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 13/07/2018

Simão Bacamarte, personagem de Machado de Assis na obra “O Alienista”, representa a visão crítica do autor quanto à obsessão pela análise psicológica no contexto da extrema evolução científica do século XIX. No entanto, apesar de ser marcada pela típica ironia machadiana, a temática do estudo psiquiátrico abordada na obra mostra-se extremamente relevante no contexto atual, visto que o índice de brasileiros portadores de psicopatologias é crescente, preocupante e a falta de debates acerca dos distúrbios psiquiátricos é um fator que agrava e perpetua os problemas resultantes do isolamento social e do pouco acesso ao tratamento médico.

A priori, convém ressaltar que a ideia de liquidez das relações sociais, defendida pelo filósofo Bauman em sua obra “Modernidade Líquida”, é cada vez mais notória na sociedade atual. Nesse viés, a fragilidade dos vínculos sociais, percebida pela pouca intensidade e durabilidade desses, dá origem a um sentimento de solidão constante, que contribui para o elevado número de casos de distúrbios mentais no país. Prova disso é que, segundo dados da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, o isolamento social está diretamente relacionado a quase 50% dos casos de depressão registrados anualmente, que aumentaram em 18% desde 2005. Dessa forma, torna-se notória a importância do corpo social na manutenção da saúde mental de um cidadão.

Em segunda instância, se por um lado houve uma elevação na taxa de brasileiros com transtornos mentais, por outro, a busca por tratamento não apresentou o índice esperado. Nesse âmbito, pesquisas da Organização Mundial da Saúde mostram que o Brasil ocupava a quinta posição entre os países com maiores números de portadores de distúrbios psicológicos no ano de 2017. Contudo, segundo a mesma fonte, menos de 10% dos indivíduos que precisam de tratamento submetem-se a ele, por fatores relacionados, principalmente, à falta de políticas públicas voltadas para a oferta de atendimento a doenças psiquiátricas a baixo custo. Sendo assim, essa deficiência faz com que a terapia esteja fora do alcance dos brasileiros que não têm condições de pagar pelas consultas e medicamentos.

Urge, portanto, um maior debate, a fim de buscar alternativas para a resolução do impasse. Destarte, é conveniente que o Governo garanta o acesso universal a tratamentos e influencie a integração social recorrendo à criação de núcleos de atenção psicológica primária, por meio da contratação de profissionais que atendam pelo Sistema Único de Saúde e estimulem um tratamento baseado na comunicação entre pacientes diagnosticados com quadros semelhantes, de modo a favorecer a solidificação das relações e reduzir a incidência de traumas psicológicos entre a população. Quem sabe, assim, a preocupação com a mente humana não fique restrita ao Realismo do século XIX.