A necessidade de debater as doenças mentais
Enviada em 07/09/2018
O Brasil possui um histórico contemporâneo de marginalização dos transtornos mentais, que pode ser comparado ao holocausto nazista dos judeus nos campos de concentração, devido ao seu grau de crueldade, violência e desumanidade. Esse processo contextualiza-se por meio das instituições manicomiais outrora existentes, como o Hospital Colônia, em Barbacena, doravante Museu da Loucura, onde eram depositados indivíduos considerados “inaptos sociais”, sob regimes de tortura e extermínio. Por conseguinte, é essencial o usufruto desses fatos visando destituir os estereótipos que afastam outrem, que apresenta algum grau de sofrimento mental, do convívio social, seja pelo estigma da vergonha, seja pelo medo e ou preconceitos, que esterilizam os debates acerca do tema.
A priori, o silenciamento de discussões acerca das doenças mentais pode ser compreendido sob a mesma ótica das justificativas empregadas para as internações compulsórias nos manicômios, que segregavam homossexuais, esquizofrênicos, alcoólatras, depressivos, crianças hiperativas, moradores de rua e quaisquer outros indivíduos que apresentassem comportamentos considerados como “anormais”, “diabólicos” ou “perturbadores da moral vigente”. Em síntese, essas premissas baseavam-se em conhecimentos ideológicos e sem fundamentação terapêutica, visando o lucro institucional. Hodiernamente, as prisões assumem, por vezes, a “função social” dos manicômios no passado, como consequência cultural do enclausuramento daquilo que o Estado não consegue gerir.
A posteriori, apesar da ocorrência de uma Reforma Psiquiátrica no Brasil, com a criação dos Centros e Núcleos de Assistência Psicossocial (CAPS e NAPS), os alarmantes dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), apontam o crescimento da incidência das doenças mentais, bem como do consumo de medicamentos psicotrópicos associados à quadros de sofrimento social, como a síndrome do pânico. Esses fatos remontam à “onda de apatia”, descrita pelo sociólogo Max Weber, como a racionalização excessiva promovida pelo cientificismo, que nubla a identificação do indivíduo acerca de si - sujeito subjetivo, contraditório, emocional e caótico.
Diante desses contextos, torna-se evidente que não se deve distanciar os transtornos mentais, como advindos, exclusivamente, de desfunções biológicas, mas também de contextos sociais, ambientais e traumáticos, aos quais todos os indivíduos estão susceptíveis. Logo, é necessário que as Prefeituras Municipais ampliem o número de CAPS nas cidades, de acordo com a densidade demográfica regional, alocando núcleos de Assistência Social atuantes nas escolas e faculdades públicas, a serviço da população local, visando aproximar os indivíduos e desconstruir a imagem da “loucura” como disfunção ou problema que deve ser evitado, mas sim como algo que deve ser tratado.