A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 18/10/2018

A Noite Estrelada, obra do pintor impressionista Vincent Van Gogh, retrata uma noite calma e cheia de luzes. Em contrapartida, o lugar de criação do quadro  era um quarto de hospício, onde Van Gogh estava, e esteve outras vezes, internado. Tal fato causa sensação de déjà vu ao refletir sobre a questão das doenças mentais na sociedade brasileira hodierna, que camufla suas dores sentimentais enquanto finge adaptar-se, de forma Darwiniana, à um cenário de efemeridade. Diante disso, emergem como principais desafios desse roteiro, a psicofobia que contribui para o recebimento de diagnósticos tardios, além das exigências de uma sociedade capitalista.

Precipuamente,a psicofobia (olhar preconceituoso e estigmatizante da coletividade sobre os distúrbios psíquicos) acabou criando no imaginário coletivo um sentimento de aversão à consultórios psiquiátricos, prejudicando diagnósticos e tratamentos. Ademais, segundo a Associação Amazonense de Psiquiatria-AAP-, demoram cerca de três anos para que a pessoa com desarranjos psicológicos chegue ao consultório psiquiátrico. Isso é explicado pelo medo de receber o rótulo de “louco” que sempre foi distribuído na sociedade brasileira, um verdadeiro desserviço que corrrobora para a intensificação da doença e para a desinformação, pois muitos ainda desconhecem quão vasto é o campo das doenças mentais.

Em liame ao exposto, surge também a problemática da sociedade contemporânea e sua conformação  que contribui para a vulnerabilidade mental e instalação de psicopatologias. Paralelamente, no livro “A Metamorfose”, de Franz Kafka, Gregor Samsa, o protagonista, é metamorfoseado em um inseto, e por não produzir mais, visto que vivia em uma sociedade capitalista, acaba desvalorizado e cheio de frustrações e tristeza. De maneira análoga, a sociedade moderna, a efemeridade do tempo, a liquidez das relações, a dificuldade de ascensão, e a pressão social corroboram para o  surgimento da sensação de impotência que acaba convergindo em direção à  transtornos mais comuns como a depressão e ansiedade ou problemas mais complexos como a síndrome do pânico e bipolaridade.

Dessarte, pode-se perceber que o debate a respeito das doenças mentais na sociedade brasileira é improtelável e necessário. Para um combate eficaz às psicopatologias o Ministério da Saúde deve atuar na linha de frente através da criação de um programa de sensibilização sobre a importância da saúde mental e que incentive a busca por apoio psicológico dentro dos ambientes onde há maior estresse emocional, tornando obrigatório, como parte desse programa, através de emendas constitucionais e benesses fiscais, o oferecimento de atendimento psicossocial em ambientes como escolas ou empresas, a fim de oferecer qualidade de vida e evitar a dicotomia à Van Gogh nos dias correntes.