A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 17/09/2019

Lobotomizando preconceitos

Ainda no século XX, diversos distúrbios e doenças mentais eram tratados a partir de métodos como a lobotomia e o frequente uso de psicotrópicos dopadores de comportamento. Progressivamente, com o desenvolvimento das psicanálise e psicologia, tal como o aprimoramento da psiquiatria, passaram-se a utilizar meios menos agressivos de tratar o doente mental, bem como iniciou-se a desconstrução dos estigmas pesados e, muitas vezes, vexatórios a esses indivíduos. No entanto, mesmo com tais avanços na medicina, a sociedade civil brasileira ainda desconhece a realidade das doenças mentais no país, reiterando preconceitos que devem ser analisados e derrubados.

Inicialmente, os dados alarmantes por trás dos distúrbios mentais no mundo e no Brasil revelam a urgência de se debater o tema. Segundo dados da OMS, cerca de 400 milhões de pessoas sofrem com transtornos mentais pelo mundo, sendo 23 milhões dessas brasileiras, número que representa aproximadamente mais de 10% de toda a população do país. E, em adendo a isso, a ONU revela que apenas 15% a 25% do total de pessoas afetadas possui tratamento adequado, respaldando, assim , o viés de que ainda há muito o que os Estados fazerem para reverter tal cenário.

Em paralelo a isso, o preconceito social atua como auxiliar principal na categorização do tema da doença mental enquanto tabu. Sob a visão sociológica, Émile Durkheim descreve em sua obra “O Suicídio” como as instituições sociais afetam o comportamento social através da coerção. Assim, segundo ele, a sociedade é moldada através das instituições do Estado, da família, da religião, dentre outras. Desse modo, verifica-se que diversas instituições ainda estigmatizam o transtorno mental, impedindo a discussão sobre a temática e, até mesmo, agravando casos de doença devido à desinformação.

Dessa maneira, torna-se indubitável que a desinformação sobre distúrbios mentais é alarmante, sendo urgente o fomento do debate acerca do assunto. Para isso, o MEC pode inserir, já no currículo obrigatório do ensino fundamental, na disciplina de Ciências, o ensino sobre identificação, dados e tratamentos das doenças mentais, naturalizando o debate desde cedo e fomentando uma educação mais inclusiva. Ademais, para aumentar a eficiência dessa medida, o Estado pode criar editais promovendo a capacitação dos profissionais da educação para abordar a temática em sala de aula. Assim, as instituições sociais passarão a lobotomizar preconceitos e não a reforçá-los.