A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 25/10/2018

A política de saúde mental passa por uma grave crise, nos âmbitos nacional e internacional. Por um lado, encontram-se avanços com o aumento da repercussão midiática e, a partir disso, do debate em torno do tema. Por outro, o despreparo e o estigma, seja escolar, seja familiar, para lidar com os transtornos mentais ainda é um retrocesso, pois impede o indivíduo de procurar ajuda e alcançar uma vida saudável, de forma a tornar suas ações um reflexo de seus sintomas.

Mundialmente, conforme a Organização Mundial da Saúde, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, revelando-se como uma consequência frente à falta de saúde emocional. No viés do sociólogo Émile Durkheim, o ato de tirar a própria vida configura um “fato social”, de maneira a agrupar o ser humano e o meio em que está inserido, considerando que o mal-estar coletivo repercute na individualidade. Desse modo, torna-se clara a ideia de que a ausência de uma sociedade humanizada e de um convívio social acolhedor são prejudiciais, independentemente da faixa etária, para o desenvolvimento de transtornos mentais, como a ansiedade e a depressão. Outro fator responsável por esse problema é a falta de empatia, já que, segundo o filósofo polonês Zygmunt Bauman, a modernidade incentiva a valorização das atividades individuais em prejuízo das coletivas, fragilizando as relações e, então, diminuindo o desejo de ajudar ao próximo.

Sob a ótica não-linear do filme “Precisamos Falar sobre Kevin”, os pais, mesmo observando a psicopatia infantil do filho, recusavam-se a falar sobre o tema, desprezando a gravidade da doença e a necessidade de tratamento psicológico. Por conseguinte, o filme termina de forma trágica, em que o personagem transtornado, Kevin, assassina o pai e a irmã repentinamente. Com base isso, nota-se que negar os sintomas significa permitir a continuidade da problemática, sendo a omissão uma imprudência que deve ser combatida. Infelizmente, o tabu retratado no filme compõe a realidade de muitas famílias brasileiras, de modo a desconsiderar as vastas possibilidades de superação e de tratamentos, como a terapia e a prescrição de remédios, em face da ignorância.

Diante disso, faz-se preciso que o Ministério da Saúde invista em serviços de atendimento médico, social e psicológico, ampliando a oferta de terapias, além de projetos de conscientização nas escolas e universidades, com materiais e aulas específicas sobre a importância da saúde mental. Ademais, é fundamental que a Mídia propague campanhas e ações de combate, como o Setembro Amarelo e os suportes gratuitos de apoio emocional disponibilizados na Internet e por telefone. Expandida, então, a conscientização da família e da sociedade, os transtornos mentais deixarão de ser um tormento solitário, abrindo-se caminhos à empatia, ao auxílio e à proteção na construção da resiliência humana.