A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 19/03/2019

O célebre provérbio “mente sã em corpo são”, creditado ao poeta latino Juvenal, resumia limpidamente uma convicção dos médicos da Antiguidade - a de que havia uma estreita ligação entre pensamentos, emoções e saúde orgânica. Contemporaneamente, embora tenham avançados significativamente os estudos acerca da mente e seus distúrbios, a necessidade de debater as doenças mentais encontra impeditivos que refletem em uma das contradições mais perversas de uma sociedade em desenvolvimento, o que se deve a fatores como negligência acadêmica estatal e cidadania frequentemente frágil.

Em primeiro plano, é indubitável que o modelo educacional brasileiro configura-se como um dos principais pilares do problema. Nesse sentido, quando o renomado educador Paulo Freire ressalta a importância de o ensino considerar elementos próprios da vida cotidiana de seus participantes, evidencia-se a necessidade do engajamento acerca das doenças psíquicas na escola contemporânea. Porém, contrariando essa lógica, a prioridade do currículo básico do Brasil, voltado frequentemente para o tecnicismo alienante, não contempla aspectos importantes, como a depressão e os problemas psicológicos, o que, de fato, deixa de formar indivíduos informados acerca de tal conjuntura e preparados para os possíveis empecilhos no ambiente familiar.

Outrossim, os estigmas presentes sob os indivíduos acometidos por transtornos mentais constitui-se entraves para o debate de tais doenças. É factível que a concepção que emerge nos cenários desse século ainda rotula doenças mentais como sinônimo de “loucura” e anormalidade, condições indissociáveis que convergem para atos de preconceito e exclusão social dos indivíduos. Tal realidade além de notadamente refletir a insipiência do tecido social acerca dos mecanismos biológicos e sociais que são causas de tais enfermidades, a exemplo, a depressão, faz com que, muitas vezes, o indivíduo não seja amparado de maneira correta, com ajuda familiar e psicológica, o que pode agravar ainda mais tal quadro.

Para que se reverta esse cenário problemático, portanto, fica a cargo do Ministério da Educação implementar na grade obrigatória do Ensino Fundamental e Médio, oficinas que abordem e põem em evidência os distúrbios mentais, de modo a quebrar o tecnicismo alienante e promover o pensamento crítico do aluno, a fim de que estes levem tal conhecimento para o ambiente familiar. É imprescindível, ainda, a atuação dos meios de comunicação de fácil acesso, como os programas de rádio, intermediados por profissionais da saúde e especialistas,  a realizar discussões em horário nobre acerca dos mecanismos que envolvem as doenças mentais, objetivando  destruir estigmas arraigados.