A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 19/06/2019

Em “O Alienista”, obra escrita por Machado de Assis, o protagonista, Dr. Bacamarte, afirma: “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é continente”. Embora seja uma obra ficcional, o livro apresenta características que se assemelham no contexto atual brasileiro, tendo em vista que o número de doenças mentais crescem em progressão geométrica. Isso é consequência do descaso do governo com a saúde mental da população e pela chamada ditadura da felicidade em que vive-se atualmente. Destarte, faz-se pertinente debater acerca dessa problemática.

Em primeiro plano, é válido ressaltar o descaso do governo com as mazelas mentais,  pois os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), instituições que visam à substituição dos hospitais psiquiátricos - antigos hospícios ou manicômios - e de seus métodos para cuidar de afecções psiquiátricas, são mal distribuídos e o números de CAPs não são suficientes para atender a grande demanda da população brasileira. Dessa maneira, se torna difícil o tratamento dessas doenças que muitas vezes precisam de acompanhamento semanal e ele se torna inviável por conta da falta de psicólogos, por exemplo.

Outrossim, cabe salientar que o sociólogo Émile Durkheim expõe que o suicídio é resultado do meio que circunda o ser, sendo potencializado pelo tabu e pelos estereótipos associados à problemática. Sob essa ótica, nota-se na atualidade, uma ditadura da felicidade, na qual sentimentos humanos primários, como a angústia e a tristeza, são repelidos, o que reflete o desinteresse da comunidade médica em discutir e tratar tais doenças, fato que contribui para o silenciamento do assunto e ocasiona obstáculos ao processo de prevenção das patologias mentais entre a população do país. Portanto, a visão compartilhada de que elas são motivo de vergonha ou condenação comprova a ausência de laços e redes capazes de proporcionar o acolhimento ao sujeito e a sua aflição.

Diante desse panorama, faz-se imprescindível a tomada de medidas ao entrave abordado. Para tanto, cabe ao Governo investir nos Centros de Atenção Psicossocial, criando concursos com mais frequência para aumentar o número de psicólogos e psiquiatras e aumentar também o número de instituições para abranger maiores áreas. Além disso, é de suma importância que o poder midiático promova a desmistificação, por meio de novelas, séries e documentários, os quais retratem, de maneira fidedigna, a seriedade das doenças psicossociais, com o intuito de reduzir os estereótipos e o silêncio em relação ao assunto a fim de estimular a comunidade a procurar auxílio médico. Espera-se com isso que o pensamento de Bacamarte se restrinja a ficção.