A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 14/07/2019

‘‘A Paisagem da queda de Ícaro’’, obra do pintor renascentista Pieter Brueghel, é uma tela que retrata a queda de Ícaro, da mitologia grega, o qual desobedece ao próprio pai e voa com asas de cera próximo ao sol, caindo no mar, enquanto outros personagens, que presenciaram o acidente, continuam sua lida alheios a seu sofrimento. Tal cenário causa sensação de ‘‘déjà vu’’ ao refletir sobre a hodiernidade brasileira, cuja população navega em uma sociedade apática à dor alheia, aderindo à tanatose sentimental e anestesiando qualquer tipo de sentimento, enquanto naufraga em psicopatologias que se acotovelam em suas mentes. Diante disso, emergem como principais desafios desse roteiro, a psicofobia que contribui para o recebimento de diagnósticos tardios, bem como as imposições de uma sociedade capitalista. Precipuamente, a psicofobia -olhar preconceituoso e estigmatizante da coletividade sobre os distúrbios psicológicos- corroborou para a criação de um sentimento de aversão à consultórios psiquiátricos, prejudicando diagnósticos e adiando tratamentos . Nesse ínterim, destaca-se a declaração da Associação Amazonense de Psiquiatria-AAP-, de que demoram cerca de três anos para que a pessoa com desarranjos mentais chegue ao consultório psiquiátrico. Essa assertiva é explicada pelo medo de carregar o rótulo de ‘’louco’’, nomeação que demonstra iletrismo e desrespeito, entretanto sempre foi distribuído na sociedade tupiniquim. Um verdadeiro desserviço, porquanto contribui para o agravamento de alguns doentes que, tardiamente, buscam ajuda e para a desinformação, já que muitos ainda desconhecem a vastidão do campo das doenças mentais. Ademais, surge, também, a problemática da sociedade atual e sua organização, as quais contribuem para a vulnerabilidade mental e a instalação de psicopatologias. Insta-se a isso, o livro ‘‘A Metamorfose’’, de Franz Kafka, que narra a história de Gregor Samsa, o qual é metamorfoseado em um inseto gigante, perdendo, então, sua importância para a família e sociedade, haja vista que sua nova forma o tornava improdutivo. Ficando,assim, cheio de frustrações e tristeza. Similarmente, os 13,1 milhões de brasileiros desempregados, segundo o IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, reprisam isso em seu cotidiano, visto que a liquidez das relações e a pressão capitalista de ascensão contribuem para o surgimento da sensação de impotência que acaba convergindo em direção a transtornos mais comuns como a depressão e ansiedade ou mais complexos como a bipolaridade e burnout.     Dessarte, pode-se perceber que o debate a respeito das doenças mentais na sociedade brasileira é improtelável e necessário. Portanto, para haver um combate eficaz às doenças psicológicas, o Ministério da Saúde deve atuar nas linhas de frente através da criação de um programa de sensibilização sobre a importância da saúde mental que incentive a busca por apoio psicológico, facilitando o acesso a esses profissionais-psicólogos, psiquiatras e terapeutas- em ambientes de trabalho, como empresas e fábricas e em postos de procura de emprego, mediante o auxílio de emendas constitucionais e benesses fiscais para empresas e órgãos que se comprometerem com o oferecimento desses serviços. A fim de evitar, dessa forma, a imersão à Bruegel nas psicopatologias nos dias correntes.