A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 30/08/2019

É possível, por intermédio da linguagem simples e coloquial do poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, fazer uma analogia a respeito da pouca importância atribuída as doenças mentais que assolam o Brasil. Sob tal análise, pode-se ligar a pedra, presente na obra Drummondiana, à crescente repercussão e manifestação da problemática no cotidiano dos brasileiros. Ainda, constata-se que o revés está atrelado não somente à inoperância estatal, mas também as consequências da formação de uma sociedade individualizadora.

Em primeira análise, pontua-se o desleixo governamental como precursor do agravamento da situação. No livro “Ética a Nicômaco”, Aristóteles, defende que a política serve para garantir o conforto dos cidadãos. Porém, o descaso das autoridades públicas em relação à gestão e a disponibilização de centros de saúde capacitados à receberem pacientes portadores de doenças mentais fomenta a atual inadimplência do Estado em solucionar as mazelas sociais. Porquanto, os dados da pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), os quais apontam que mais de 70% das pessoas que sofrem de transtornos mentais não possuem acesso a tratamento adequado, exemplificam o desdém. Dessa forma, verifica-se a necessidade de uma reformulação nos valores e nas ações políticosociais, a fim de que o axioma aristotélico retorne ao cerne dos princípios governamentais e os acontecimentos supracitados possam ser mitigados à população.

Outrossim, a “modernidade líquida”, consoante o sociólogo Zygmunt Bauman, é caracterizada pelo constante fluxo mutatório das relações socioculturais. Nesse sentido, a insegurança advinda das incertezas do viver em tempos líquidos corrobora para que muitos cidadãos do país desenvolvam graves quadros de doenças mentais, tais como depressão e ansiedade. Ainda, fatores de ordem social, bem como econômica acentuam o caótico cenário da pós-modernidade e configuram, também, as dificuldades do indivíduo em viver sem preocupações demasiadas. Dessa forma, faz-se necessária a construção de caminhos para combater as consequências do mundo líquido.

Logo, para que o triunfo sob as adversidades provenientes dos transtornos mentais seja consumado, urge que o Ministério da Saúde, por meio dos recursos enviados pelo Estado, promova a construção de Centros de Atenção Psicossocial (Caps), nas regiões interioranas do país, de forma a democratizar o acesso aos tratamentos das doenças mentais. Ademais, com o objetivo de formar cidadãos mais solidários, o Ministério da Educação, precisa implementar na grade de conteúdos escolares aulas direcionadas à promoção da cultura de paz e repeito ao próximo. Dessarte, a pedra poderá ser removida do caminho social.