A necessidade de debater as doenças mentais
Enviada em 06/09/2019
A literatura ultrarromântica trás, em suas obras, o eu-lírico devastado emocionalmente, buscando uma fuga da realidade, e, em decorrência disso, encontra a morte como medida resolutiva de seus problemas. Não somente na literatura, as doenças psicológicas acometem densa parte da população mundial, e essas são potencializadas devido a carência de debates, em conjunto com as falhas da saúde pública. Com isso, analisar o panorama atual é fundamental para desconstruir essa realidade.
É importante, antes de tudo, analisar a falta de conhecimento a respeito das causas e efeitos desses distúrbios. Em vista disso, larga parcela da sociedade busca explicar as doenças mentais com base em religiosidade, ou apenas como uma tristeza momentânea, de modo a, muitas vezes, julgar o indivíduo por seu sofrimento. Exemplo disso foi o Padre Fábio De Melo, que, ao declarar à impressa que estava em tratamento por sofrer de um transtorno psicológico, foi duramente questionado acerca de sua fé por pessoas que colocavam essa como resolução para o problema. Tal fato, além de golpear brutalmente a saúde mental de quem já se encontra fragilizado, alerta para a necessidade de divulgação e uma reformulação no pensamento social acerca das doenças da mente.
Ademais, é notório que as lacunas governamentais estão entre as causas do problema. Nesse sentido, dados da OMS e da ONU relatam que, apesar de mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo sofrerem com doenças e transtornos mentais, apenas 15% a 25% têm acesso ao cuidado adequado. Tais estatísticas refletem o baixo investimento nesta área da saúde pública, e isso, aliado aos exorbitantes preços para o tratamento na rede privada, resulta em uma sociedade cada vez mais doente e suscetível à atitudes extremas, como automutilação e até suicídio. Desse modo, a negligência do Estado configura ataques contra a respeitabilidade e a dignidade do cidadão.
Entende-se, portanto, que urge uma mudança no modo de pensar e agir a respeito da problemática por parte das esferas sociais e políticas. Nesse sentido, é necessária uma ação conjunta, na qual a mídia promova, por meio de campanhas publicitárias - como a divulgação do Setembro Amarelo, por exemplo - e ficções engajadas, debates acerca das diversas doenças e transtornos mentais que podem afetar a sociedade, estimulando a compreensão dessas e a prática da empatia com suas vítimas, formando cidadãos socialmente responsáveis. Nessa mesma linha de ação, no Brasil, por exemplo, Ministério da Saúde deve, em conjunto com órgãos como o CRAS - Centro de Referência de Assistência Social -, criar equipes com profissionais em saúde mental para atendimento nesses centros, como também em instituições de ensino, tendo em vista proporcionar atendimento humanizado à população, e fazer com que os desdobramentos dessas mazelas sociais fiquem apenas na literatura.