A necessidade de debater as doenças mentais
Enviada em 31/10/2019
O longa-metragem estadunidense “Coringa” (2019) aborda a questão da saúde mental quando esta é preterida pelo Estado. Na vida real, de acordo com a OMS, transtornos psicológicos têm se revelado cada vez mais comuns, sendo o suicídio a segunda causa de morte juvenil. O Brasil, por sua vez, ocupa o desonroso posto de país com maior concentração de pessoas com ansiedade. Nesse sentido, é possível inferir que há uma problemática de cunho social no que tange às doenças mentais, tanto no sentido de contribuir para o desenvolvimento destas, quanto o de agravá-las devido a um precário enfrentamento.
Em primeira análise, é necessário suscitar a reflexão acerca de como a vida moderna tem relação com o adoecimento da população. Pesquisadores de uma universidade alemã concluíram que habitantes dos grandes centros têm maior risco de desenvolver depressão, ansiedade e esquizofrenia. Dentre os fatores envolvidos, estão o trânsito, a concorrência em vagas de trabalho, violência, poluição e fragilidade nos laços. De acordo com o sociólogo Georg Simmel, o fenômeno próprio das grandes cidades modernas é a atitude “blasé”, ou seja, impessoalidade e indiferença. No ambiente online não é muito diferente: em 2019 a internet completa seu trigésimo aniversário e a sociedade se vê diante de uma quantidade inédita de informação e troca de conteúdo. Porém, tal configuração vem acompanhada de superficialidade e fugacidade nas relações.
Outrossim, além da vida moderna contribuir para o desenvolvimento de transtornos mentais, o problema encontra outro agravante no Brasil: o país não está preparado para lidar com eles. Há uma precaridade no tratamento dos doentes, reflexo de uma política que, até poucas décadas atrás, sustentava a existência de manicômios. Somente em 2001 foi publicada uma lei própria para garantir direitos aos portadores de transtornos mentais. Assim, é perceptível que a mudança nesse entendimento é recente e, na prática, ainda não avançou muito, havendo falta de medicação e acompanhamento médico especializado na rede pública - fatores primários para se controlar a situação.
Destarte, para se mitigar essa complexa problemática diretamente influenciada por fatores sociais, urge um conjunto de ações por parte do poder público: é imperioso investir no SUS para garantir que não haja falta de medicação e de atendimento especializado, como vagas para acolhimento nos Centros de Atenção Psicossocial. Nas escolas, a presença obrigatória de psicólogos e assistentes sociais seria de grande ganho, proposta esta de uma PL aprovada na Câmara, mas vetada pelo presidente. A população, portanto, precisa se articular junto a ONGs e movimento sociais para exigir do Estado a implantação de tais medidas básicas, construindo um futuro mais saudável para o Brasil.