A necessidade de debater as doenças mentais
Enviada em 27/04/2020
A canção “Manual do Suicídio”, do cantor Kamaitachi, oferece uma leitura acerca dos pensamentos do autor na óptica de suas efermidades psicológicas. Nela, sobretudo, destaca-se a incompreensão alheia diante das suas dificuldades, o que, considerando a proporção midiática da música, reflete um anseio de grande parcela da população. Sendo assim, hoje, na sociedade brasileira, é notório a existência de uma psicofobia, isto é, um estigma social que circunscreve aqueles que enfrentam problemas mentais. Dessarte, aponta-se a falta de empatia como a principal razão para a problemática, a qual incita uma espécie de violência.
De início, afirma-se que a ínfima empatia, atualmente, denota a aversão introspectiva postulada por Wolf Lepenies. Ele, sociólogo alemão, por meio da teoria da “Avareza Cognitiva”, preconizou que os indivíduos, hodiernamente, evitam ponderar seus preceitos em virtude de uma “preguiça cognitiva”, ou seja, em detrimento de avaliar as situações alheias aos seus pensamentos, fecham-se em bolhas socioculturais. Tal análise de Wolf aponta uma população pouco empática, a qual, decorrente dessa bolha, opta por manifestar opiniões, muitas vezes, estigmatizadas. Dessa forma, no prisma da problemática, essa avareza, àqueles que sofrem por intempéries psicológicas, profere, geralmente, discursos minimamente preocupados com a realidade alheia, o que, conforme a letra de Kamaitachi, evidencia apenas dificultar o panorama.
Por conseguinte, enquanto essa conjuntura perdura, observa-se a “Violência Simbólica”, de Pierre Bourdieu, em voga na esfera social. Nessa teoria, o autor francês classifica qualquer dinâmica interespecífica como um confronto ubíquo de poder, o qual, sem materialização física, orquestra as relações interpessoais. Nesse sentido, haja vista a vulnerabilidade social, comumente, inerente aos psicoenfermos, essa “violência” tende a segregá-los do arcabouço social padrão, reinvindicando até mesmo a patente cidadã deles.
Portanto, infere-se que, visto a intempestividade da problemática, é fulcral basear as medidas na educação para evitar a perpetuação tanto da “Avareza Cognitiva” quanto da “Violência Simbólica”. Para tanto, compete ao Estado, por meio do Ministério da Educação e do apoio familiar, o dever de inserir na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) disciplinas que foquem ora na educação acerca das principais doenças mentais, ora na construção de uma geração mais empática em face das dificuldades emocionais e psicológicas alheias. Com isso, as famílias, por sua vez, poderão consolidar os ensinamentos escolares nesses vieses, a fim de moldar uma população que diverge das práticas aversivas supracitadas e que estoura as bolhas que basearam o “Manual do Suicídio”.