A necessidade de debater as doenças mentais
Enviada em 08/06/2020
No filme “Coringa”, é narrado o cotidiano de Arthur Fleck - um homem de meia-idade - que sofre de um transtorno mental denominado Transtorno da Expressão Emocional Involuntária, cujo aspecto marcante são as risadas incontroláveis, mas também exibe sintomas de depressão e esquizofrenia. Por conta disso, o personagem é extremamente marginalizado, atacado e negligenciado pela sociedade de Gotham. Fora da ficção, a banalização e a falta de debates sobre as doenças mentais representam um problema nocivo que deve ser enfrentado de forma mais organizada pela sociedade brasileira. Isso se evidencia não somente pelos altos níveis de cobrança da atualidade, mas também pelo sucateamento da saúde pública no país.
Em primeiro lugar, a busca excessiva por perfeição é uma questão crucial ao analisar a questão. No livro “Sociedade do Espetáculo”, do filósofo e sociólogo Guy Debord, é explicitada sua teoria de que todas as pessoas vivem suas vidas como se fosse uma performance, tentando dar o melhor show. Essa teoria foi agravada pela globalização que acarretou o aumento dos padrões buscados pela sociedade e, consequentemente, o aumento dos níveis de cobrança pessoal. Ademais, o “espetáculo” não pode ter falhas, o que impede, em muitos casos, a busca por tratamento. Dessa forma, o excesso de trabalho e a necessidade de estar conectado a todo momento têm causado, cada vez mais, preocupantes quadros de ansiedade e depressão, intensificados pelo medo de julgamento do tecido social.
Além disso, os baixos investimentos no setor de saúde pública colaboram para a precariedade na assistência para esses indivíduos. Segundo o filósofo Aristóteles, “política é a arte de gerir a pólis visando ao bem comum”. No entanto, apesar de saúde ser um direito e um dever do Estado, garantido pela Constituição Federal, por conta do sucateamento do Sistema Único de Saúde, muitas pessoas não recebem o tratamento adequado. Dessa maneira, nos afastamos da máxima aristotélica e as doenças mentais acabam negligenciadas no Brasil.
Torna-se evidente, portanto, que medidas são necessárias para resolver o impasse. Nesse sentido, além de promover campanhas de conscientização sobre os transtornos mentais, o Estado e o Ministério Público devem criar um projeto de lei que será entregue à Câmara dos Deputados, com o objetivo de aumentar os investimentos no setor da saúde pública, para que mais psicólogos e psiquiatras sejam contratados. Isso deve ocorrer por meio de concursos públicos, a fim de contratar profissionais qualificados nessas áreas, promovendo assim um melhor atendimento para a população. Desse modo, estaremos mais próximos de uma sociedade que respeita as doenças mentais, diferentemente da distopia de Gotham.