A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 09/09/2020

Coringa, grande vencedor do Oscar de 2020, popularizou-se por abordar os efeitos de uma sociedade omissa no quadro mental do protagonista, Arthur. Não distante da realidade, o personagem, sendo frequentemente posposto pela construção social, assim como pelo Estado, torna-se uma reprodução dos que sofrem com problemas neurológicos — sistematicamente acentuados pelo estilo de vida contemporâneo — e, deste modo, enfrentam uma expressiva discriminação. Com efeito, evidencia-se que debate acerca dos desafios para lidar com a saúde mental na contemporaneidade é necessário, posto que apresenta determinantes fundamentos e efeitos de caráter econômico e social.

A priori, a conivência da sociedade contribui para a exclusão desse grupo, visto que a população se torna apática diante dos obstáculos encontrados pelos que sofrem com doenças mentais. Tal situação se perfaz com a animadversão do corpo social aos doentes mentais, consequência de um passado histórico condescendente com o desamparo de minorias, viabilizando o desmazelo da população com os que sofrem de psicopatologias e, por conseguinte, inibindo um cenário de equidade social. Nessa lógica, uma analogia com o pensamento de Edgar Morin mostra-se possível, uma vez que o filósofo explicita que os indivíduos tendem a impor rótulos sociais fundamentados em preconceitos e estereótipos a grupos que se comportam de maneira diferenciada do senso comum.

Outrossim, a supressão dos portadores de doenças psíquicas dos ambientes de trabalho favorece a marginalização desse grupo, uma vez que os danos emocionais decorrentes dessa exclusão se tornam desencadeadores do desequilíbrio emocional. Essa conjuntura de expulsão, intrínseco à sociedade, instaura o preconceito contra os enfermos, os quais passam a enxergar suas situações de desligamento do trabalho como uma ação punitiva por estarem doentes. Assim, o distanciamento desses cidadãos de suas atividades laborais expõe-se como um entrave para a normalização, e consequentemente o tratamento, dos problemas psicológicos. Nessa perspectiva, uma comparação com a teoria de Karl Marx revela-se concebível, posto que o sociólogo definia o trabalho no mundo contemporâneo como um “bem inalienável do homem”, isto é, a essência da vida humana. Dessa forma, o estigma social dos que sofrem de doenças neurológicas como incapazes deve ser eliminado.

Em suma, cabe ao Estado — com a configuração do Ministério da Saúde — desenvolver, por intermédio das verbas governamentais, clínicas populares, a fim de democratizar o acesso de toda a população a esses centros de diagnóstico e tratamento e, como resultado, informá-las a respeito dos possíveis danos que aquela enfermidade pode causar. Talvez assim menos casos como o de Arthur, do filme Coringa, sejam realidade.