A necessidade de debater as doenças mentais

Enviada em 13/11/2020

Fundado em 1903, o Manicômio de Barbacena recebeu pessoas de todo país e, por sua conduta desumana, foi comparado aos campos de concentração nazista. Nesse viés, o hospital, a princípio construído para tratar doentes mentais, internava pessoas sadias que apresentassem um comportamento “desviante”, como os homossexuais. Persistindo atemporalmente, nota-se que os transtornos psicológicos são negligenciados na sociedade hodierna. Assim, entre os fatores que contribuem para solidificar esse quadro destacam-se o estigma social, bem como a falta de suporte estatal.

Decerto, a discriminação da sociedade no que tange aos portadores de desvios psicológicos corrobora para sua exclusão e falta de tratamento adequado. De maneira análoga a esse cenário, o livro “O Alienista”, escrito por Machado de Assis, retrata a história de Dr. Bacamarte e seus estudos acerca da loucura. No entanto, apesar da bagagem acadêmica que o médico possuía, a narrativa expõe as desnecessárias intervenções realizadas por ele, que se baseavam em padrões sociais e na índole dos indivíduos. Fora da ficção, o auxílio apresentado aos doentes mentais e a forma como o corpo social os trata é semelhante à trama e, por isso, carregado de preconceito. Dessa forma, a intolerância dificulta que os debates acerca dos transtornos psicológicos sejam eficientes.

Paralelo a isso, a letárgica assistência disponibilizada pelo Estado é fator preponderante na problemática. Sob tal ótica, segundo dados do Ministério da Saúde, somente 1,5% do orçamento total ligado ao bem-estar é destinado ao auxílio doentes psiquiátricos. Não obstante, a falta de um respaldo clínico público impossibilita o tratamento de vários indivíduos, haja vista que a rede privada cobra muito pela intervenção. Por conseguinte, o artigo 196 da Constituição de 1988, no qual afirma que a saúde é um direito de todos e dever do Estado é violado.

Destarte, frente a provectos fatores discriminantes e insuficiente respaldo governamental, o debate dos tratamentos psicológicos é dificultado. Portanto, o Ministério da Educação e Cultura, como instância máxima nos aspectos ligados à formação brasileira, deve adotar estratégias no tocante à visão preconceituosa acerca dos doente mentais. Essa ação pode ser feita por meio de campanhas educativas que informem sobre os transtornos psicológicos e incentivem o respeito, a fim de gerar a inclusão dessa parcela social. Ademais, cabe ao Ministério da Saúde destinar mais subsídios aos ramos da psiquiatria com a criação de mais clínicas de tratamento e disponibilização de mais psicólogo, com o fito de garantir o cumprimento do direito constitucional. Somente assim, casos como o do Manicômio de Barbacena não serão mais vistos.