A necessidade de debater as doenças mentais
Enviada em 09/04/2018
Segundo Émile Durkheim, um dos célebres teóricos do Período Oitocentista, a sociedade pode ser comparada a um “organismo vivo” por apresentar mecanismos funcionais integrados. Contrariamente a isso, contudo, a banalização das relações humanas construídas ao longo da consolidação do capitalismo moderno atua como um catalisador do aparecimento de psicopatologias, uma vez que promove a desintegração desse sistema que, somado à falta de tratamento adequado aos pacientes, acaba por intensificar as enfermidades.
A priori, é fundamental pontuar que a intensificação da ocorrência de agravos mentais é um fator histórico e conjuntural. Isso ocorre em função das modificações socioculturais emergidas pela globalização e a consolidação do sistema econômico neoliberalista. Nesse contexto, seguindo conceitos do sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre a liquidez da modernidade, as interações dos indivíduos com seus semelhantes e o ambiente tornaram-se mais fluidas e menos concretas. Como resultado, a ausência de profundidade no contato interpessoal cria um extremo vazio íntimo e emotivo, tornando mais frequente a assiduidade das psicopatologias.
Um agravante para esse processo decorre da falta de preparo na assistência em saúde mental que ainda é deficitária no Brasil. A Reforma Psiquiátrica, ainda recente no país, trouxe uma nova perspectiva de tratamento baseada na valorização do ser humano e no entendimento de que o transtorno mental pode não ser apenas uma doença, mas também um problema social. No entanto, segundo dados do Ministério da Saúde, grande parte dos investimentos ainda são destinados aos hospitais psiquiátricos com o modelo manicomial antigo que não atendem as novas perspectivas e necessidades da população.
Nesse ínterim, portanto, medidas são necessárias para reverter o atual cenário de saúde mental no país. Inicialmente, cabe ao Estado, por meio do Ministério da Saúde, promover um projeto de substituição dos hospitais psiquiátricos para centros de tratamentos psicossocial e terapêutico, com a presença de um corpo clínico multifuncional e o tratamento no modelo humanizado, auxiliando na melhoria dos pacientes. A sociedade, por sua vez, deve debater, por meio de fóruns, alternativas para impedir a intensificação dos agravos mentais e propor mudanças no Plano Municipal de Saúde. Sob tal perspectiva, poder-se-á melhorar a assistência psicossocial à população.