A participação política do jovem no Brasil contemporâneo

Enviada em 18/05/2020

O escritor português José Saramago, em sua clássica obra " Ensaio sobre a cegueira ‘’, retrata um contexto patológico, no qual as pessoas se apresentam cegas à realidade ao seu redor. Diante disso, a ficção faz paráfrase ao atual cenário de grande parte da juventude brasileira frente ao engajamento político nacional, que, muitas vezes, é comprometido por uma passividade da população jovem em relação aos problemas sociais. O rompimento desse tabu, todavia, requer alteração na mentalidade da população e em seus preceitos culturais, visto a importância da participação política e social dos jovens.

É válido salientar, a princípio, que o processo educacional implantado no Brasil é um fator fundante para a ocorrência dessa problemática. Nesse sentido, segundo o pedagogo Paulo Freire, na exposição do conceito de ’’ Educação bancária ’’ - processo no qual o conhecimento é tão somente depositado no indivíduo, sem instigá-lo à criticidade -, muitos jovens têm dificuldade de entender a necessidade de participação política diante dos problemas da nação e mantêm um caráter passivo diante desse danoso cenário. Assim, é evidente a necessidade de alteração nesse ciclo educacional incoerente, de modo a promover um senso crítico cada vez mais aguçado na juventude, o que poderia corroborar com uma maior atuação desse grupo, junto com seus páreas, na participação politico-social.

Além disso, seria ingênuo não destacar a importância das redes sociais como facilitador do engajamento político dos jovens. Nesse cenário, é evidente que, segundo ideais do geógrafo Milton Santos, a partir do aparecimento de uma ’’ aldeia global ‘’, capaz de encurtar distâncias e promover maior fluxo de acesso a informações, mediante as redes sociais, a juventude, que se encontra cada vez mais inserida tecnologicamente, tem sua participação política facilitada a partir da interação com outras opiniões, realidades e modelos culturais, o que representa um benefício à sociedade. Nessa perspectiva, é possível elucidar, como exemplo, as manifestações sociais ocorridas no Brasil em 2013, que tiveram ampla difusão e apoio popular a partir das redes sociais e tomaram proporções que envolveram diversos problemas sociais, como o aumento da tarifa do ônibus e a corrupção.

Mostra-se, portanto, essencial a adoção de medidas que visem à superação do paradigma supracitado, mediante, sobretudo, a promoção de um processo educacional eficaz, pautado na criticidade. Nesse ínterim, é necessário que o Estado, por meio do MEC, promova a inserção de meios capaz de aguçar o senso crítico estudantil, como levantamentos de temas sociais que envolvam posicionamento e argumentação, além matérias que dialoguem com o cotidiano do indivíduo e possam promover uma autocrítica, de maneira que isso coopere com um maior senso de responsabilidade nos indivíduos, promova maior participação política e distancie a realidade nacional da ficção citada.