A participação política do jovem no Brasil contemporâneo
Enviada em 27/05/2020
Em “As Meninas”, Lygia Fagundes Telles discorre, à luz da personagem Lia, acerca da altivez pueril frente a um dos mais tensos cenários políticos brasileiros: a Ditadura Militar, cuja repressão calava quaisquer manifestações. Tal contexto fecundou o silêncio, o qual, atrelado à descrença em lideranças da nação, infelizmente amordaça a participação política do jovem no Brasil atual e é imprescindível, portanto, reformular esse vil panorama, para que uma sociedade fortalecida em seu poder de crítica e de deliberação se mantenha vigilante sobre seus direitos e consolide a cidadania.
Nesse viés, é vital assimilar o complexo mecanismo que ceifa o engajamento juvenil às esferas políticas, calcado na corrupção. Assim, é notório que esse matiz acinzentado - forjador da nação - tinge um quadro de desesperança e cristaliza, desde a tenra idade, a prostração diante das deterioradas relações públicas, mediante as quais a participação parece improdutiva. Acresce-se outro ponto nevrálgico: a inacessibilidade às garantias constitucionais, como saúde, educação e trabalho, realidade atroz que emerge a urgência de sobreviver como prioridade a uma miríade de jovens e, mais uma vez, relega a último plano o engajamento a essa esfera que a abandona e a cerceia. Logo, a crédito dessa execrável situação, a conjuntura da política greco-romana, na qual somente a aristocracia era capaz de debater, é resgatada no status quo brasileiro.
Em outro prisma, é danosa a repercussão da ínfima participação política do jovem no Brasil contemporâneo. Dessa forma, é cabal o prejuízo à habilidade de deliberar acerca de questões socioeconômicas, bem como à produção de diálogos em sociedade afinados a alavancar abordagens eficazes para problemáticas triviais. Por conseguinte, o terreno da intolerância é fertilizado e a política brasileira, gradativamente polarizada, é a tela dantesca da falta de representatividade, da propagação de inverdades e dos discursos de ódio, consoante observado nas retóricas do presidente Jair Bolsonaro. Finalmente, o que se deixa entrever é um nebuloso futuro para nação, ancorado no peso de uma cidadania fustigada.
Infere-se, pois, que para consolidar a participação do jovem na política brasileira atual, é crucial reafirmar o papel basilar do Estado em garantir Direitos Constitucionais, a fim de nivelar o acesso aos algoritmos da cidadania. Ademais, há que fortalecer, por interposição do Ministério da Educação, as disciplinas de Ciências Sociais nas grades educacionais, a fim de potencializar os diálogos e edificar uma cosmovisão crítica do cenário brasileiro. Além disso, é interessante que prefeituras disponibilizem fóruns e enquetes, em espaços específicos de fala, para que questões da urbe sejam debatidas e a representatividade seja assegurada. Por isso, a censura que silenciou a juventude do século XX não mais suprimirá o potencial de pavimentar um futuro edificante para o Brasil contemporâneo.