A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 17/09/2019
“A lei do Rei se acata mas não se cumpre”, essa é uma máxima que traduz a interpretação do jeitinho pelo escritor e pesquisador Richard M. Morse, que em seu livro, A volta de Macluhanaíma, define jeitinho como uma maneira de se atendar a autoridade mas sem obedece-la. Embora ocorra uma generalização desse comportamento como algo essencialmente negativo, é necessário perceber não só a existência de um lado positivo mas como algo fundamental nas relações interpessoais brasileiras. Dessa forma, faz-se necessário, portanto, uma análise histórica desse comportamento, a fim de não apenas desvendar o motivo da persistência mas, principalmente, desconstruir apenas o lado negativo.
Em primeiro lugar, é válido analisar esse costume da perspectiva histórica e sociológica. Tal comportamento está relacionado a capacidade de o povo tupiniquim se adaptar aos acontecimentos mais inesperados. Entretanto, se sobressai negativamente, uma vez que muitos buscam obter vantagens pessoais transgredindo regras. Dessa maneira, situações encaradas como parte do cotidiano se mostram nocivas e contribuem para a manutenção de um sistema corruptível e desigual. Por isso a banalização de atos egoístas, como furar filas, burlar blitz, furar sinal, dar ou receber troco errado legitima a aceitação de grandes corrupções.
Em segundo lugar, é necessário perceber que tal comportamento tem sim o seu lado positivo. Segundo o livro “dando um jeito no jeitinho”, escrito pelo doutor Lourenço Rega, esse costume pode ser positivamente classificado e dividido em três categorias sendo a primeira a inventiva, que é quando usa-se da criatividade para superar alguma adversidade, solidária quando usada para ajudar alguém em uma situação difícil, e por última, conciliadora que consiste na busca de uma solução que agrade a todo. Dessa maneira, é fato de que o jeitinho não só tem seu lado positivo mas como esse é fundamental para o brasileiro superar suas inúmeras adversidades.
Diante desse panorama, fica evidente a necessidade não só de se combater o lado transgressor do jeitinho mas como cultivar o lado próspero do mesmo. Isto pode ser obtido através do Poder Legislativo e Executivo, adotando a uma política de tolerância zero, o primeiro deve reformular as leis, tornando-as mais rigorosas, e o segundo aplicando punições mais assertivas, inibindo assim a cultura de impunidade. Além disso, é fundamental o papel do indivíduo e da família; o primeiro é responsável por lutar por uma sociedade mais igualitária, sendo ativo na busca por seus direitos e não atuando de forma conivente e omissa a qualquer tipo de corrupção; o segundo tem o dever de transmitir valores aos jovens, para que estes se tornem cidadãos conscientes, formadores de um novo ciclo virtuoso, capaz de recuperar o significado positivo de superar adversidades herdado do povo tupiniquim.