A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 17/09/2019
Macunaíma, personagem de Mário de Andrade, autor modernista, é a personificação do brasileiro, assumindo defeitos como a falta de caráter e desonestidade. Infelizmente, tais características ainda parecem definir os brasileiros contemporâneos, configurando a persistência do “jeitinho brasileiro”, pois os valores éticos são negligenciados. Nesse horizonte, enquanto houver individualismo na sociedade e defeitos na educação, essa problemática será vigente.
De início, consta-se que o individualismo acarreta falta de ética nas relações interpessoais. Segundo o filósofo Zygmunt Bauman, as pessoas estão, em tempos de modernidade líquida, presas em sua zona de conforto. Isso acontece, principalmente, em vista da tecnologia e da possibilidade de evitar conflitos e convívio social que essa ferramenta traz. Sob essa óptica, por não se desenvolver inteligência interpessoal, virtudes como a empatia e a alteridade permanecem inibidas, o que infere ações desprovidas de valores éticos, como prejudicar o outro em benefício próprio. Verifica-se isso no estereótipo do jeitinho brasileiro, definido como uma conduta corrupta, ainda que pareça inofensiva. Logo, perpetua-se um quadro de indivíduos egoístas que não dão importância aos valores éticos. Depois, é indubitável que uma falha na educação, principalmente na infância, é um dos fatores que estagnam o jeitinho brasileiro no país. Nesse viés, os valores éticos devem ser desenvolvidos desde a infância, pela família, ideia defendida pelo sociólogo Anthony Giddens, defensor desse período como o de maior aprendizado social. No entanto, a família moderna tende a transferir essa responsabilidade à escola, que, por não deter o dever de transmitir todos os valores, não o realiza eficientemente. Sem essa eficiência, o indivíduo cresce com valores questionáveis, propensos à falta de ética, como a legitimação de atos imorais – desde “inocentes” trapaças a furtos de materiais.
Urge, portanto, a necessidade de subverter o jeitinho brasileiro. Para isso, os usuários de tecnologia, devem evitar a prisão de suas bolhas, mediante maior interação social, para que o individualismo seja mitigado. Ademais, a Escola, detentora de responsabilidade social, deve impedir que as famílias de seus estudantes a transfiram o dever de transmitir valores, mediante o incentivo ao engajamento à vida escolar de seus filhos, a fim de corrigir as falhas na educação infantil. Assim, Macunaíma não mais definirá o povo brasileiro.