A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 04/08/2020

A Constituição cidadã de 1988 assegura a todos os brasileiros igualdade na observância da lei. Contudo, contrário à expectativa legal, criou-se no Brasil a formação de uma identidade nacional em que “levar vantagem” é exaltado em contrapartida do cumprimento da lei. O famigerado “jeitinho brasileiro”, um eufemismo para a prática institucionalizada da corrupção, deve ser entendido como um aspecto nocivo da vivência brasileira porque exalta a experiência individual em detrimento da coletiva. A fim de modificar esse cenário, deve-se analisar a importância da presença do Estado para a inibição desse comportamento.

Em primeiro lugar deve-se entender a formação do Estado brasileiro como uma experiência na qual o poder central esteve afastado do continente americano por séculos, tema aparente no livro O diabo e a terra de Santa Cruz, de Laura de Mello e Souza. Essa distância permitiu que a população brasileira se desenvolvesse independentemente e criasse particularidades alheias à legislação portuguesa, criando um sentimento de distanciamento das práticas legais. A ausência da presença efetiva do Estado é uma característica marcante na formação histórica brasileira, sendo visível ao longo do Brasil colônia, império e república, este último marcante na prática do chamado coronelismo.

Em segundo lugar é necessário perceber o sentimento histórico de impunidade, visto pelo mau exemplo dado pelas próprias elites como mostra Raymundo Faoro em Os donos do poder, onde o autor nos explica como a elite brasileira sempre se interessou em governar para si própria. Esse mandonismo do poder estatal, que se apropria do público como privado, causa a sensação de uma impunidade estabilizada na vivência brasileira, que replica o comportamento vigente de suas elites.

Destarte, percebe-se que o “jeitinho brasileiro” é uma criação do conjunto de fatores que levaram a formação do Estado brasileiro. A fim de modificar essa mentalidade característica da população, deve-se primeiramente comentar sua origem e suas consequências para a população. A presença da família e da escola, por exemplo, são fundamentais para a inibição desse comportamento, por isso o Ministério da Educação deveria orientar os educadores para um ensino consciente das raízes do jeitinho brasileiro para que os alunos identifiquem as consequências danosas e antidemocráticas de sua prática, a fim de que lentamente crie-se uma mudança de paradigma na forma como o brasileiro enxerga a política. Somente assim, a população finalmente fará jus à Constituição que é subordinada.