A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 24/09/2019

Criado por Mário de Andrade, escritor da segunda geração do Modernismo, o personagem Macunaíma, representa no decorrer da narrativa, os principais aspectos do povo brasileiro. à vista disso, observa-se nas atitudes ardilosas desse personagem, características que formam o " jeitinho" inerente a sociedade no Brasil. Nesse sentido, a constituição histórica dessa personalidade e as suas consequências para a democracia devem ser destacadas.

Em primeira análise, vale salientar a influência colonial na formação da identidade coletiva do país. Conforme destaca o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil” - livro que ressalta o legado da base patriarcal,  o brasileiro é um ser “cordial”. Dessa forma, ele afirma que o indivíduo mantém sua supremacia ante o social, pois não consegue separar o que é público do que é privado, o que corrobora com a corrupção ligada a todas as  esferas sociais. Em concordância, dados da Organização não governamental Transparência Internacional o país ocupa a alarmante 76º posição a qual o coloca em pior lugar que nações africanas, como Namíbia e Botsuana. Ademais, cabe enfatizar que embora seja destacado o contexto político, ele apenas é o reflexo da falta de ética presente  diariamente em muitas atitudes de cada cidadão.

Por conseguinte, o estado democrático sofre diversos impactos. De acordo com o filósofo contratualista Jean Jacques Rousseu, é dever do homem abrir mão de sua liberdade natural para que os direitos civis sejam preservados. Porém, diante da supressão da moralidade pelo caráter afetivo, oriundo da “cordialidade” do brasileiro, o indivíduo se torna incapaz de estabelecer as convenções sociais de forma integral. Assim, prejudica-se a regulamentação das leis e dos princípios políticos, pois devem ser independentes dos interesses pessoais para que não afetem o exercício pleno da democracia. Desse modo, o bem-estar social é comprometido, pois é afetado a oferta de direitos como saúde, segurança e educação pelo Estado, bem como impede o pleno desenvolvimento econômico. Conforme pode-se observar, as nações com menor índice de corrução como a Dinamarca e Finlândia, são as possuem maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

Por conseguinte, a identidade nacional personificada em Macunaima deve ser revisada pela sociedade. Nesse viés, é necessário que a escola desenvolva por meio de projetos multidisciplinares, a consciência sobre a distinção entre as instâncias públicas e privadas com ênfase na ética e moral,  assim como deve evidenciar os riscos da corrupção, em todos os seus formatos, para a democracia. Diante disso, será possível romper as heranças coloniais e transformar gradativamente o “jeitinho brasileiro” de modo a garantir a formação de uma nova sociedade mais ética.