A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 15/10/2019

Como cantara Bezerra da Silva: “malandro é malandro; mané é mané”. Esses termos, trazidos à vida social brasileira, sintetizam a exaltação àqueles que - malandramente - impõem-se sobre os cidadãos conscientes - ditos “manés” -, que respeitam as normas no convívio social. Ao extrapolar a ludicidade da canção, esse comportamento desrespeitoso ao bem coletivo, conhecido como “jeitinho”, persiste como uma chaga na sociedade brasileira, sendo motivado pela sensação de impunidade e pela corrupção institucionalizada no território Nacional.

Em primeiro lugar, cabe ressaltar a impunidade que se observa frente a muitos atos de corrupção corriqueiros no Brasil. Exemplo disso é que são usuais os relatos, nas conversas informais da população, sobre subornos a agentes públicos para evitar multas de trânsito, pedidos de favores a políticos em troca de votos ou a realização de compras sem nota fiscal, para não recolher o imposto devido. Nesses casos, raramente ocorre a punição dos envolvidos, fazendo persistir um errôneo caráter de normalidade do “jeitinho” na sociedade brasileira. Desse modo, gera-se um senso comum de impunidade, que se traduz no fato de que mais de 80% dos brasileiros julgam ser fácil burlar as leis no país, conforme pesquisa da Fundação Getúlio Vargas.

Em segundo lugar, a corrupção institucionalizada no Brasil motiva a percepção de que o “jeitinho” faz parte da identidade Nacional. Nesse sentido, é indubitável que a persistência histórica dos desvios de conduta nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário da federação refletem no comportamento da sociedade brasileira. Nesse âmbito, é preciso enfatizar que a corrupção emana das próprias instituições responsáveis por salvaguardar os direitos do povo, previstos na Constituição-Cidadã de 1988. Nesse cenário, a falha do Estado fomenta as relações predatórias na sociedade, estimulando os homens a agirem como “lobos” dos próprios homens, como teorizou Thomas Hobbes.

Portanto, para que o “jeitinho” deixe de persistir na sociedade brasileira, urge que o Ministério da Educação (MEC) atue para promover a valorização da ética pelos brasileiros, por meio da inclusão da disciplina de “Coletividade”, na qual serão estudados os benefícios do cumprimento das normas em sociedade para o exercício pleno da cidadania, em todas as séries do ensino básico. Ademais, o MEC deve promover encontros , nas escolas, entre alunos e seus familiares, para tratar dos malefícios dos atos de corrupção cotidianos sobre a sociedade brasileira. Como efeito, formar-se-ão brasileiros mais conscientes de que a exaltação à malandragem só é bonita na letra do samba.