A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.

Enviada em 15/10/2019

“Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, cegos que não veem, cegos que vendo não veem”. O excerto do romance modernista “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago, critica, por meio do uso de metáforas, a alienação de uma sociedade que se torna invisual. Fora do universo literário, tal obra atemporal não foge da cegueira contemporânea, na qual a população brasileira não enxerga persistência do “jeitinho” brasileiro. Nesse aspecto, dois fatores são relevantes: a inobservância governamental e a questão cultural.

Em primeira instância, convém frisar que o descaso estatal promove subterfúgio ao quadro vigente. Nesse ínterim, o filosofo iluminista Rosseau, no contexto da Revolução Francesa, afirmou o papel do Estado em garantir igualdade jurídica a todos. Contudo, a prática deturpa a teoria, embora seja promulgada na Constituição Federal crime atos de corrupções, a prática deturpa a teoria, em virtude de os políticos brasileiros estarem entre os mais corrutos do mundo, segundo o site G1. Dessa maneira, é inadmissível que com as altas taxas de impostos e tributos cobrados no país o poder público não seja capaz nem de combater as mazelas de desvio de dinheiro da esferal social, muito menos atitudes imorais da população.

Em segunda instância, não obstante, vale ressaltar que a herança histórica-cultural corrobora para a persistência do impasse. De fato, atitudes impuras como passar o sinal vermelho, furar filas e sonegar impostos compõe-se o processo comportamental de um povo que procura um “jeitinho” de escalpar do problema enfrentado. Uma vez que o presente há índices do passado, no contexto barroco, Gregório de Matos criticou satiricamente a postura corruptível da população baiana. Em consoante a isso, faz-se necessária analogia com o quadro “O Abapuru”, da modernista Tarsila do Amaral, em que para a autora a representação da cabeça pequena representa a falta de criticidade do homem. Desse modo, baseados em pensamento errôneos, é inaceitável que a malha social fique passível de soluções e cada vez mais se tornem parte dessa obra.

Infere-se, portanto, que o “jeitinho” brasileiro representa um desafio a ser combatido. Para tanto, cabem as escolas, por serem instituições formadoras de opiniões, criar um debate educacional nos centros educacionais para combater tal postura retrograda da esfera social, por intermédio da participação de advogados, sociólogos e filósofos para discutirem em uma roda de conversa sobre como o indivíduo pode largar o ‘‘jeitinho" da nação verde amarela de enfrentar alguma problemática, além de discutirem sobre as posturas corruptíveis intrínsecas na sociedade, a fim de conscientizar o tecido social sobre tal aspecto. Dessa forma, a cegueira dita por Saramago, será combatida.