A persistência do “jeitinho” na sociedade brasileira.
Enviada em 11/10/2019
O livro ’’ Memórias de um sargento de milícias’’, de Manuel Antônio de Almeida, narra a história de Leonardo, um cidadão que sempre consegue burlar as leis e obter alguma vantagem nas mais diversas situações, ainda que de modo corrupto. Não tão distante da ficção, o famigerado ‘‘jeitinho’’, isto é, utilizar-se de meios indevidos para obter algum benefício, ainda persiste na sociedade brasileira. Isso se deve, sobretudo, a sensação de impunidade que rege o sistema judiciário do país e que, desse modo, tem dado respaldo a perpetuação do ‘‘jeitinho’’ no Brasil, que tem sido cada vez mais banalizado, se tornando intrínseco ao cotidiano do povo brasileiro.
É importante pontuar, de início, que a perpetuação desse problema no país se deve ao fato de muitos crimes ficarem impunes, principalmente aqueles praticados por autoridades do Brasil. Isso é evidenciado pelos casos de corrupção que assolam o país e que, muitas vezes, não são punidos de forma adequada. Tal fato, além de levar à descrença da eficiência do sistema judiciário pela população, faz com que os cidadãos não tenham, em suas autoridades, boas referências de honestidade e justiça, acreditando ser aceitável os modos indevidos de ser conseguir determinado benefício.
Como consequente disso, a prática de ações indevidas a fim de se obter vantagens se perpetua no país e tem se tornado parte do cotidiano brasileiro. Esse cenário se reflete em atitudes corriqueiras que, devido a frequência com que ocorrem e à falta de punição sobre elas, se tornam cada vez mais comuns no Brasil, o que leva a sensação de normalidade de uma prática ilícita, como, por exemplo, a utilização de carteiras estudantis falsas. Esse contexto mostra-se consoante à teoria da banalidade do mal, de Hannah Arendt, na qual um ato errado, quando praticado com determinada frequência, acaba por se tornar banal, deixando de ser combatido. Desse modo, a persistência do ‘‘jeitinho’’ na sociedade brasileira tem levado a crença de ser algo comum atitudes que deveriam ser veemente contestadas.
Frente ao exposto, fica evidente a necessidade do combate do ‘‘jeitinho’’ no país. Para isso, é imprescindível que o Ministério da Justiça e Segurança Pública, em parceria com a mídia, veicule nos principais meios de comunicação campanhas que incentivem toda a população a denunciar atos de corrupção, mesmo que pareçam de pequenas proporções, com a finalidade de que os responsáveis sejam punidos com rigor e que sejam combatidas, eficientemente, tais ações no país. Somente desse modo, será possível garantir que cidadãos como Leonardo existam apenas na ficção.